DO ESTADO DA ARTE NA BAIXADA – Análise de Atlético-PR 5 x 1 Chapecoense #impressões

Por Hudson Martins

cap 1

  1. Quando vejo este Atlético, penso imediatamente no seguinte: este Atlético não é, ele está. O que isso significa? Significa que este Atlético está em movimento. Sendo movimento constante, não é possível que o Atlético seja algo (estático, inerte), porque ele será outro algo a cada novo instante. Mas, sendo movimento que não cessa, como é possível conhecê-lo?
  2. Vamos começar pela linha de três defensores. Nenhum dos três é apenas zagueiro. Ninguém é zagueiro, mas todos estão. Esteban Pavez me parece muito confortável, interpreta o espaço com inteligência, especialmente em transição defensiva (repare em um belíssimo desarme feito aos 37 minutos, logo antes de uma falta cometida por Wellington Paulista). Pelos lados, Zé Ivaldo e Bruno Guimarães – ambos atacantes, sem sê-lo! Não foram poucas as vezes em que eles quebraram as linhas de marcação da Chapecoense, fosse em condução, fosse com um passe vertical. Como dissemos aqui, é importante compreender que não exatamente se joga com três atrás para se defender melhor. Três atrás, neste Atlético, é uma das formas de se atacar melhor.
  3. A linha de quatro meias tem dois laterais. Ou seja, dois dos meias não o são. Mas os dois interiores também não são volantes – Matheus Rossetto e Guilherme Camacho são meias de origem. Ninguém é, todos estão! Rossetto ora uma linha acima de Camacho (diagonais são imprescindíveis no ataque apoiado), ora mais próximo dos zagueiros, no início da construção. Neste jogo, Rossetto não me pareceu um termômetro, como se costuma dizer, mas sim um metrônomo: termômetros podem apenas aferir, mas não controlam a temperatura de um paciente, enquanto o metrônomo, por sua vez, regula o tempo da música, ora um tempo acima, ora mais cadenciada. Pelos lados, Jonathan e Thiago Carleto têm um roteiro, mas me parecem livres para jogar o jogo, como se estivessem na rua de casa: podemos vê-los como apoios por fora, apoios por dentro, próximos à área, dando assistências, finalizando a gol! A condição a priori é exatamente aquela de que falamos acima: jogam em uma equipe que não é, mas que está. Estando, tudo muda no instante seguinte.
  4. É importante pontuar que o resultado não corresponde aos problemas impostos pela Chapecoense ao Atlético no primeiro tempo. Gilson Kleina trouxe Amaral para a linha de zagueiros, de modo que a Chapecoense se defendia com uma linha de cinco e outra de quatro jogadores – todos atrás de Wellington Paulista. No Atlético, a ausência de Guilherme permitiu que Pablo jogasse uma linha abaixo, formando a dupla de meias ofensivos ao lado de Nikão. Me chamam a atenção as sucessivas tentativas de desmarques, que não foram necessariamente bem-sucedidos no primeiro tempo (a Chapecoense estabilizou-se na intermediária defensiva, raramente oferecendo superioridade numérica nas regiões próximas à sua área), mas que são formas ativas de buscar algum desequilíbrio, e que deixam rastros do movimento de que estamos falando e das ideias que sustentam o modelo. O mesmo vale para Ribamar, ora puxando a defesa adversária em profundidade, ora surgindo como linha de passe metros atrás, permitindo que não faltem opções para a circulação da bola.
  5. Neste sentido, acho razoável pontuar que o modelo de jogo, para além do tatiquês, pode ter uma profunda conotação moral. Vejo o movimento deste Atlético como um despertar da memória afetiva através do futebol de rua. Vejo como uma crítica à hiperespecialização que o futebol importou da sociedade. Vejo um elogio à educação, porque este trabalho parece assumir que os jogadores também não são, eles estão, e podem aprender a estar melhores do que já eram. A função do treinador está intimamente atrelada à função do professor. Vestiário e campo são duas enormes salas de aula. A cooperação e solidariedade que estão na base do modelo (como eu posso ajudar o portador da bola?) soam como música em uma sociedade tão individualizada, todos absortos nos próprios interesses e problemas. Para entender porque o futebol é mais arte do que ciência, é preciso que aprendamos a ler o jogo com alma de poeta.
  6. Me parece aceitável o elogio daqueles que dizem que este Atlético é corajoso, porque a coragem (como as outras virtudes) está na justa medida – neste caso, a justa medida entre a covardia e a temeridade. O Atlético não me parece temerário (não estamos falando de uma equipe de Zdenek Zeman), mas acho importante relevar alguns riscos corridos em transição defensiva – bem claros em um contra-ataque de 2 v 1, quando o CAP já estava a frente no placar, em que Apodi erra um passe simples para Arthur Caique. Me lembro de ter visto algo parecido no jogo contra o Tubarão. É bem verdade que, sendo movimento, este Atlético está sempre em construção. O que não significa que possamos ignorar pequenos sintomas de cada jogo, sinais de moléstias em potencial.
  7. Nenhuma das duas equipes fez alterações no intervalo – aliás, algo que me agrada: embora as substituições sejam um recurso absolutamente legítimo, elas também podem servir como escudo ao mau treinador. Na verdade, a principal alteração viria logo no início do segundo tempo: gol de Wellington Paulista, após cobrança de falta lateral. A priori, uma situação muito desconfortável, porque o primeiro tempo dava a entender que a Chapecoense tinha recursos para criar novas dificuldades ofensivas ao Atlético, e talvez o fizesse ainda melhor com a vantagem no placar.
  8. O problema deste raciocínio (causa/consequência) é que o jogo tem razões que a própria razão desconhece. Acho mais prudente adaptar-se ao jogo do que tentar controlá-lo. Me parece ser o que Atlético faz. Para além dos méritos da Chapecoense, talvez o próprio logos do jogo não tenha oferecido ao Atlético as chances que ele esperava no primeiro tempo. Chances essas que vieram na etapa final e que, através da combinação precisa entre oportunidade e modelo, se converteram em gols. O resultado pode soar muito cruel para a Chapecoense. Mas, mesmo neste aspecto, percebemos como o jogo é constante movimento. Quando se pensa que o jogo é, ele se torna outra coisa.
  9. Como bem observado por Fernando Diniz ao Troca de Passes, do Sportv, a virada obrigou a Chapecoense a recorrer ao plano B, e isto permitiu que o Atletico tivesse tempo e espaço em transição. Assim saíram os gols de Matheus Rossetto e Ederson, já nos instantes finais.
  10. Mas também foi em vantagem que vimos alguns dos melhores momentos do Atlético no jogo, não exatamente no campo de ataque, mas no campo de defesa, trabalhando a bola de um lado para o outro, às vezes metros atrás, usando Santos como apoio. Passar para trás é uma maneira admirável de se atacar – especialmente se a equipe que o faz estiver em vantagem – porque o passe para trás atrai, convida o adversário para a pressão, e apenas uma ação pode ser suficiente para demolir todo um sistema defensivo (como fez Santos, em um passe vertical para Matheus Rossetto, já na parte final do segundo tempo). O Atlético está. Quando o adversário pensa que ele é alguma coisa, pode ser que não seja mais.
  11. Várias outras interpretações me parecem possíveis para este Atlético de Fernando Diniz e Eduardo Barros. Por ora, me atenho à ideia do movimento, do devir, porque ela me parece central. Se nos concentrarmos nela, podemos nos desprender um pouco da ideia de conhecer, na totalidade, este Atlético. Sendo movimento, ele nos escapa. Assim, é melhor fazer conjecturas. E admirar.

cap 2

Embora seja uma imagem auto-explicativa, o mapa de calor nos mostra como o Atlético modula o espaço efetivo de jogo e como movimento e equilíbrio estão atrelados – repare na relação quase simétrica entre os corredores esquerdo e direito. O resultado diz muito, mas há coisas para além dele. (Créditos: whoscored)

@hudrmp

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