A VENTANIA DERRUBA UMA EQUIPE SEM RAÍZES – Análise tática de Figueirense 2 x 1 Juventude

Por Nícolas Wagner

Era bastante claro que o Juventude iria ter muitas dificuldades na estreia na Série B diante do Figueirense. Afinal, uma equipe em formação, buscando se encontrar após um início de temporada problemático, enfrentaria outra já consolidada e motivada com o recente título catarinense. Assim, o resultado de 2 a 1 para o Figueira talvez não tenha fugido de uma certa normalidade: na ventania que fez no Orlando Scarpelli, o Juventude sucumbiu por ser uma “árvore” ainda sem raízes que permitissem maior estabilidade e solidez durante os 90 minutos. Ademais, problemas de adaptação e concentração contribuíram para que, em uma atuação que em geral não foi ruim (os números atestam isso), o alviverde saísse derrotado de Florianópolis.

Ínicio ruim e falha de marcação na bola parada

Do momento em que a bola rolou até o primeiro gol do Figueirense, aos 17 minutos, o Juventude praticamente não jogou, se limitando a rifar ou a buscar a ligação direta, sem sucesso, nos poucos momentos em que teve a bola. Isso esteve relacionado principalmente com a insegurança dos jogadores juventudistas devido ao forte vento que soprou contra a meta de Matheus no 1º tempo e com a marcação pressão que o Figueira conseguiu exercer com êxito em alguns momentos. Apesar de não ter grande produção ofensiva, os donos da casa iniciaram nitidamente mais confortáveis em campo, propondo o jogo e girando a bola com tranquilidade diante de um Juventude que marcava baixo – nos primeiros 20 minutos, a bola ficou 59% do tempo com os catarinenses.

ju 1Juventude recuado, marcando no 4-4-2 com todos jogadores atrás da linha da bola

O primeiro gol dos donos da casa, anotado aos 17 minutos por Zé Antônio, surgiu em uma cobrança de escanteio. Diferentemente de seu antecessor Antônio Carlos Zago, Julinho Camargo ordena a marcação individual nas bolas paradas. Essa transição de modelo deve ser relevada, mas quem falhou na marcação no lance do gol foi Jair, que já deveria estar bem adaptado ao modelo de jogo de Julinho por ter trabalhado com o treinador no Veranópolis durante o Gauchão deste ano. Percebam na imagem abaixo como o volante fica longe de Zé Antônio, permitindo ao camisa 5 do Figueirense finalizar livre após a primeira disputa pelo alto.

ju 2Juventude com 4 encaixes individuais próximos do adversário na cobrança de escanteio. No 5°, de Jair em Zé Antônio, o volante alviverde fica longe do camisa 5 catarinense. Adivinhem quem faz o gol?

 

Melhora aniquilada pela desatenção

Foi somente após sofrer o gol de bola parada que o Juventude acordou na partida. Logo após a saída de bola no meio-campo, Felipe Lima encontrou pela primeira vez Leandro Lima entre as linhas de marcação – situação que seria recorrente durante a partida. O meia, que passou a maior parte do Gauchão lesionado, bateu forte para boa defesa de Dênis. No rebote, Ricardo Jesus desperdiçou.

ju 3Leandro Lima recebe entre as linhas de marcação antes de finalizar para boa defesa de Dênis. Percebam como a movimentação quebra a segunda linha de marcação, e como o movimento de Leandro saindo da ponta para o meio libera o corredor para Felipe Mattioni

A partir desse momento o alviverde conseguiu ficar mais com a bola e passou a exercer sua principal dinâmica na fase ofensiva: o ponta-direita (dessa vez, Leandro Lima) centralizava, Felipe Mattioni dava amplitude e profundidade pelo lado direito, e César Martins passava a ter liberdade para fazer a iniciação das jogadas pela direita. As tentativas de passe de César por dentro foram bem sucedidas em alguns momentos, mas faltou um pouco de velocidade e acabamento para que a sequência da jogada, com os meias buscando Mattioni próximo a linha lateral, resultasse em boas ocasiões para o Juventude.

ju 4Dinâmica ofensiva mais clara do Juventude, que passou a funcionar melhor depois do gol do Figueirense: César Martins inicia as jogadas pelo lado direito, buscando acionar Leandro Lima, que busca o jogo entrelinhas, por dentro, e libera o corredor para Felipe Mattioni

De qualquer modo, a partir do funcionamento parcial dessa mecânica e com o recuo do Figueirense, o Ju inverteu o controle da posse de bola (60% x 40% para os visitantes dos 20 aos 40 minutos) e melhorou na partida. Mas essa melhora foi aniquilada aos 36 minutos, quando, em investida esporádica, Renan Mota encontrou Gustavo Ferrareis às costas da linha de defesa. A tremenda felicidade do lance, que teve lançamento e conclusão perfeitos, foi potencializada pelo vento, que fez com que a bola ganhasse velocidade para superar a linha defensiva do Ju, e com a própria desatenção e mau posicionamento da linha, que teve Felipe Mattioni não percebendo a movimentação de Ferrareis às suas costas e César Martins dando condição para o atacante. Aí entra também a organização e o posicionamento da linha defensiva, cuja debilidade podemos associar ao trabalho ainda incipiente de Julinho. Contudo, estivessem Mattioni e César mais atentos, o gol provavelmente não teria acontecido.

ju 5Gustavo Ferrareis se projeta às costas de Felipe Mattioni e César Martins, desatento, não se adianta para deixar o atacante do Figueirense em impedimento. Falha dupla no segundo gol dos catarinenses

 

Dificuldade para criar e melhora com Rangel e Queiróz

Na segunda etapa, o Figueirense naturalmente passou a administrar o resultado, conseguindo ficar com a bola sem se expor. Ao Juventude, faltava agressividade para apertar a confortável saída de bola catarinense, de modo que, mesmo perdendo, o alviverde teve menos posse durante praticamente todo segundo tempo. Dessa forma, as chances criadas no terceiro quarto do jogo se resumiram a lances inusitados – cruzamento de Fellipe Matheus em que o vento quase “matou” Dênis – e bolas paradas – na melhor delas, Bertotto cabeceou por cima.

O Juventude só foi melhorar e passar a realmente a assustar o Figueira a partir das entradas de Caio Rangel e Guilherme Queiróz, que só aconteceram na segunda metade da segunda etapa. Aberto na esquerda no lugar de Felipe Lima, Rangel agregou mais verticalidade à equipe, algo que fica relativamente deficitário na composição da linha de 3 que iniciou jogando, já que Fellipe Matheus, Leandro Lima e Felipe Lima, embora muito técnicos, não têm a velocidade e o 1 contra 1 como principais virtudes. Rangel, em sua primeira participação, conseguiu uma bela arrancada pela esquerda e cruzou para Fellipe Matheus, que finalizou obrigando Dênis a fazer importante intervenção.

Guilherme Queiróz, por sua vez, deu mais mobilidade e qualidade de finalização à referência do ataque, que teve Ricardo Jesus em mais uma noite pouco inspirada. A manutenção de Jesus em detrimento de Queiróz passou a ficar insustentável para Julinho após o segundo fazer o gol de desconto do Ju, construído em grande tabela Entre Felipe Mattioni e Fellipe Matheus.

 ju 6

ju 7Quando Felipe Mattioni recebe do lado direito, Fellipe Matheus gesticula e se aproxima para receber. À medida que a bola supera e tira o lateral esquerdo Lazaroni da jogada, Mattioni se projeta, recebe de volta de Felipe Matheus e cruza rasteiro para Guilherme Queiróz marcar

O gol até deu esperanças de que o Juventude poderia buscar o empate, mas a sequência apresentou os jogadores alviverdes cometendo muitos erros técnicos, motivados por uma certa ansiedade. Assim, no final do jogos os gaúchos só conseguiram chegar à área na base do abafa, mas a sequência de escanteios e faltas laterais foi infrutífera.

Apesar de o resultado ter sido péssimo para uma arrancada de Série B, ele é compreensível diante do momento de reestruturação por que o Juventude passa, com assimilação de um novo modelo de jogo, chegada de atletas e aprimoramento da deficitária parte física. Sem diminuir os erros que comprometeram e culminaram na derrota, esses aspectos, somado às condições climáticas adversas e à própria qualidade do adversário, dão perspectivas menos negativas do que as que o Gauchão deixou. Afinal, após o primeiro gol o Juventude passou a rifar menos a bola (foram apenas 8 lançamentos errados no jogo, média bem inferior a boa parte do estadual) e esboçou um poder de reação com as entradas de Caio Rangel e Guilherme Queiróz. Se Julinho rever a suplência do segundo e corrigir erros pontuais, a expectativa é que o Ju tenha jornadas mais felizes nos próximos dois jogos em casa, contra Oeste e Avaí

@analiseECJ

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