Na terra da rainha, o rei português supera o rei brasileiro: A SELEÇÃO NA COPA DE 66

Por Ícaro Caldas

Enquanto a geração que tinha participado da guerra de 1939 a 1945 saía dela traumatizada e desejosa de um mundo estável, a geração nascida durante e logo após a batalha punha em xeque os valores de seus avós e país, que tinham conduzido o mundo à grande carnificina. Os jovens do ocidente buscavam menos regras, mais descontração, mais alegria, mais liberdade: desse desejo surgiram, na década de 1960, a pílula anticoncepcional, o rock ‘n’ rolo, a minissaia, a revolta estudantil de maio de 1968, o festival de Woodstock. No futebol, a melhor síntese desse estado de espírito foi o norte-irlandês George Best, que atuava no Manchester United desde 1963 e, pela criatividade (foi bola de ouro em 1968) e irreverência (“Em 1969 larguei as mulheres e o álcool. Foram os piores vinte minutos da minha vida”), era chamado de o Quinto Beatles. Bem no meio desse turbilhão social e cultural, a Copa foi realizada na Inglaterra, pátria de algumas daquelas contestações recentes e pátria do futebol surgido pouco mais de um século antes (suas regras tinham sido fixadas em Londres em fins de 1863).

Dentre os dezesseis países selecionados —- dez europeus, cinco latino-americanos e um asiático —-, havia novidades. Portugal participava pela primeira vez de uma Copa e terminaria honroso terceiro lugar, tendo ainda o artilheiro da competição, Eusébio, com nove gols. A Coreia do Norte também fez sua estreia em grande estilo: eliminou a Itália (1 a 0) logo na primeira fase do torneio, deu um grande susto em Portugal nas quartas de final antes de levar a virada (5 a 3) e ainda assim terminou na surpreendente oitava colocação. O bicampeão Brasil deixou a copa na fase de grupos, ocupando o decepcionante 11• posto, que só não foi pior que o 14• do longínquo ano de 1934.

As rações do fracasso brasileiro resultaram de um misto da desorganização de 1934 com a soberba de 1950. Em sua autobiografia, Pelé reconhece que no Brasil de 1966 “não havia uma alma que não fosse tocada por um otimismo exagerado” em relação à seleção. Três meses antes do início da Copa, o número inaugural da revista Realidade intitulava sua principal matéria “Foi assim que ganhamos o Tri”. Esperando colher os frutos da vitória tida como certa, João Havelange interferiu no trabalho de Paulo Machado de Carvalho e acabou por afastá-lo. Sem essa retaguarda, “Feola parecia uma sombra do que fora antes, com muito pouco da autoridade de 1958”, avaliou Pelé. Voltou a tradicional política de apadrinhamento dos jogadores, com 47 pré-convocados de quinze clubes diferentes. Nessa situação, os treinos não visavam entrosamento da equipe, e sim à escolha daqueles que seriam excluídos da lista final. Os últimos deles receberam a notícia já na Europa, a onze dias da estreia. O diagnóstico de Pelé foi lúcido: “Começamos a perder o título antes mesmo de embarcar para a Inglaterra”.

Sem entrosamento e com mau preparo físico, a seleção brasileira fez na estreia uma partida apenas mediana contra a Bulgária, vencendo-a por 2 a 0. Na rodada seguinte, caiu diante da Hungria por 3 a 1. Assim, no fechamento da fase de grupos o Brasil precisava ganhar de Portugal, e por larga diferença de gols. O receio instalou-se na concentração brasileira e a comissão técnica não se estendeu sobre a escalação. O resultado, mais uma derrota de 3 a 1, não poderia ter sido diferente. Como definiu o brasileiro Otto Glória, treinador de Portugal: “O Brasil tem o melhor futebol do mundo. Mas essa é uma das suas piores seleções”. O rei Pelé saía ingloriosamente da Copa, sendo substituído no posto por outro negro lusófono, Eusébio, que os ingleses passaram a chamar de King.

Não foi apenas para os brasileiros que a copa de 1966 deixou más lembranças. A arbitragem permitiu que aquele fosse o mais violento Mundial de todos os tempos. Pelé, por exemplo vítima do búlgaro Jetchev no jogo de estreia, não pôde atuar na partida seguinte, contra a Hungria. Quando voltou, foi atingido pelo português Morais e, desde o trigésimo minuto de jogo, só fez figuração em campo.

66

@caldas_icaro

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