EM LISO ASFALTO, DESLIZA O GRÊMIO – #impressões

Por Hudson Martins

Créditos: goal.com

Parte Um

  1. São muitos os caminhos para se chegar ao gol adversário. Em futebolês, podemos chamar o percurso escolhido por uma dada equipe de modelo de jogo. Assim como um certo itinerário varia de acordo com as condições climáticas, a potência e manutenção do veículo, a qualidade da rodovia ou mesmo a destreza do motorista (de todos, na verdade), o modelo varia em função do treinador, da cultura do clube, dos jogadores disponíveis, da relação com a imprensa, dos resultados no curtíssimo prazo. O modelo não é um fim em si mesmo. O modelo é um caminho.
  2. No caso específico do Grêmio, a vitória deste sábado me pareceu mais um jogo em que o modelo gremista soou mais maduro do que o modelo do adversário – mesma sensação que tive ao assistir ao primeiro dos três recentes jogos entre Grêmio e Internacional. Outrora em um clássico, hoje contra um dos assim chamados candidatos ao título brasileiro. E como visitante. A impressão é que a continuidade deste trabalho, atrelada às experiências importantes adquiridas nas duas últimas temporadas, fazem com que o Grêmio esteja em um estado de flow, no qual as coisas aparentam acontecer com alguma naturalidade.
  3. Sobre o Cruzeiro, não é o primeiro jogo a que assisto na temporada. Após esta derrota, tenho a mesmíssima impressão que tive anteriormente. Um bom time, um ótimo treinador, mas me parece transparecer dificuldades latentes no momento ofensivo e nas transições defensiva e ofensiva. Eu poderia também citar as bolas paradas defensivas, alvo de críticas por parte da imprensa mineira, mas não tenho acompanhado tão de perto. Em linhas gerais, sinto que os mecanismos subjacentes ao modelo pensado por Mano Menezes (que parece interessado em um ataque mais posicional) ainda não estão exatamente sólidos, motivo que nos ajuda a entender a oscilação nos jogos mais difíceis da temporada até agora.
  4. Para compreendermos melhor o que se passa, façamos um paralelo entre as duas duplas de interiores. Arthur e Maicon são uma combinação explosiva, não apenas pelas diferenças cronológicas (um jovem, o outro experiente), mas por serem estilos absolutamente complementares. Enquanto um é o artista do movimento, da manutenção da posse, a condução sempre próxima aos pés, o outro é artista do passe, no tempo e velocidade certos, geralmente quebrando as linhas adversárias. Dois jogadores rápidos – de raciocínio, como pede o futebol. A regularidade do Grêmio é diretamente proporcional à dinâmica e qualidade trazida por ambos. Por outro lado, no Cruzeiro, encontramos características um pouco diferentes. Henrique e Ariel Cabral têm faixa etária e ambições (provavelmente) similares, são passadores de bom nível, não são exatamente condutores. Ariel pode encontrar um passe extraordinário – como encontrou no lance seguinte ao gol gremista – mas tanto ele quanto Henrique me parecem jogadores mais ortodoxos, de maior tendência para equilibrar a própria equipe do que para desequilibrar o adversário (neste sentido, o argentino me parece muito inteligente para o balanço defensivo). Some a isso um aparente descompasso em pelo menos dois dos princípios estruturais ofensivos (apoio e mobilidade) e entenderemos porque o Cruzeiro, hoje, parece muito mais próximo de um jogo reativo, como aconteceu neste sábado. O que não é um demérito. É um caminho.
  5. O Grêmio, por sua vez, viaja por outra via. É uma equipe mais propositiva, com mecanismos muito sólidos em todos os momentos do jogo – especialmente no ataque. A impressão, em dados momentos, é a que o Grêmio faz pequenos rondosdurante o jogo, treinando e jogando ao mesmo tempo, como de ver. Na manutenção da posse, para além de Maicon e Arthur, Éverton e Ramiro são apoios recorrentes pelos espaços médios. Cícero, substituto de Luan, ainda não me parece exatamente confiante, mas compreende o modelo. André foi correto, criando linhas de passe metros atrás do seu setor – mais tarde, seria premiado com um gol. Quando não há opções adiante, o Grêmio circula. Às vezes, circula até demais (646 passes e 60% de posse, segundo o sofascore), o que causa, no adversário, inquietações para muito além da tática. Os efeitos de uma boa posse são, em última análise, mentais – basta ver a falta que originou o cartão de Ariel Cabral e, mais tarde, a sequência de faltas cometidas por Sassá. O Grêmio parece ter alcançado um estágio ofensivo realmente admirável, não apenas porque o jogar parece fluido, mas porque o jogar parece fluido em jogos bastante diferentes. Em liso asfalto, o Grêmio desliza.
  6. É claro que o comportamento defensivo não basta, especialmente se pensarmos que ataque e defesa não se separam. O Grêmio materializa esta ideia através da pressão imediata em transição defensiva. Não raro (e especialmente no primeiro tempo), vimos o Grêmio empurrando o Cruzeiro para o seu próprio campo, limitando as possibilidades de transição do adversário e, logo após a perda, pressionando imediatamente o portador da bola. Este foi um problema importante a ser decifrado pelo Cruzeiro, problema que se repetiria durante todo o jogo. Soa interessante que a postura do Cruzeiro em transição defensiva seja claramente oposta, muito mais conservadora – recomposição para o bloco médio, depois pressão no portador. Aqui, temos não apenas um sinal do caráter supostamente reativo de que falamos acima, mas também um sintoma que, se atacado, pode trazer evoluções sensíveis neste modelo de jogo. O Cruzeiro tem, tanto nos titulares quanto nos reservas (Bruno Silva, Federico Mancuello), jogadores que podem contribuir neste sentido.

Aqui, um breve retrato da ocupação espacial das duas equipes. Em linhas gerais, o Grêmio parece não apenas ocupar uma área maior no espaço efetivo de jogo, como também domina os corredores central e direito de ataque. Neste último caso, parece haver um movimento deliberado do Grêmio – talvez forçando o jogo sobre Egídio, e explorando a qualidade de Ramiro. Repare na diferença na quantidade de toques na bola dados por cada equipe (Fonte: whoscored).

Parte Dois

  1. O lance do gol envolve dois jogadores fundamentais para entender este Grêmio. Ramiro é um ex-volante perfeitamente adaptado como extremo, entregando não apenas a profundidade vista no gol, como repetidos apoios pela direita e um comportamento admirável em transição defensiva. Éverton parece conciliar a técnica refinada com uma confiança inquebrável, que o faz ganhar os mais diversos confrontos de 1 v 1 (aliás, tive a impressão de que outro motivo para o forçoso jogo pela direita era atrair o Cruzeiro para aquele setor, permitindo que, após uma inversão, Éverton pudesse receber a bola em condições de buscar o confronto direto contra Edílson).
  2. Some aos dois o breve retorno de Luan, e o resultado é um meio-campo altamente propositivo, com dinâmicas e maturidade que me parecem, por ora, únicas no futebol brasileiro.
  3. Pela direita, também é importante fazer um adendo sobre Leonardo Moura. Prestes a fazer 40 anos, parece nitidamente à vontade, tanto com o modelo (não lhe falta qualidade) quanto com o clube – ter recebido a faixa de capitão logo após a saída de Maicon foi um gesto bastante significativo. Ao mesmo tempo, é interessante perceber como um certo modelo contempla mais um jogador do que outro. Madson, mais de uma década mais jovem, é um bom jogador, mas parece mais útil em transição, especialmente se tiver o corredor inteiramente aberto. Em posse da bola, nunca aparentou ser um jogador exatamente seguro. A ida para o Grêmio, para além das supostas dificuldades, pode lhe servir como um enorme aprendizado.
  4. A expulsão de Walter Kannemann me parece indiscutível.
  5. No Cruzeiro – e aqui aceito as opiniões dos colegas mineiros – julgo importante observar o posicionamento de Thiago Neves. Ainda que tenha sido eleito o melhor jogador do Campeonato Mineiro, me parece que o jogos grandes revelam que tê-lo jogando de costas, alguns metros distante dos volantes, pode lhe ser um limitador bastante sensível. Ainda que o Cruzeiro, ao menos por ora, esteja sem um centroavante de referência, imagino que utilizar Thiago alguns metros atrás, como um dez, dando auxílio imediato aos meias e liberdade para chegar aos dois corredores laterais, pode vir a ser um outro passo importante para que o Cruzeiro tenha um pouco mais de autonomia durante o jogo.
  6. Quem parece voltar a um bom nível é Dedé. Ainda que esteja distante do jogador que fora em ato e que seria em potência nos tempos de Vasco, é bastante agradável vê-lo em campo, não apenas por ser um bom jogador, mas por aparentar ser um grande sujeito. Aliás, seu salto arrebatador em 2010 me parece fruto de uma circunstância demasiadamente humana, em que a acolhida da torcida aliada às características particulares do clube fizeram com que ele se sentisse nitidamente confiante, o que permitiu um salto extraordinário em curtíssimo tempo. Imagino que um processo similar possa ocorrer agora, especialmente tendo em vista o vínculo criado com o torcedor após tantas lesões.
  7. Por fim, sem ser redundante, é imprescindível falar de Arthur. Embora tenha me parecido coadjuvante de Maicon no primeiro tempo, foi o senhor absoluto do jogo no segundo – especialmente nos minutos finais. Os giros já característicos com o domínio da bola nos lembram enormes jogadores de um passado recente, e nos fazem crer que, de fato, parece um jogador feito para o Barcelona. Repare que o Brasil parece em ótimos pés pelo corredor central: Arthur, Fred, Douglas Luiz, Igor Liziero (para ficar apenas nos quatro). Por aqui, não há safras ruins. Ideias, talvez.

Aqui, perceba como as ideias do Grêmio geram repercussões no Cruzeiro. Nove jogadores podem ser vistos atrás da intermediária defensiva. Em posse, Éverton certamente tem como opções Arthur/Maicon, que podem circular a bola até o lado oposto, retendo a posse e testando a flutuação do adversário. Este foi um padrão recorrente durante o jogo, que minou o Cruzeiro não apenas do ponto de vista tático, mas mental. Neste sentido, repare onde está Rafael Sóbis. (Reprodução: Premiere)

@hudrmp

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