UM JUVENTUDE DE INCERTEZAS ÀS VÉSPERAS DA SÉRIE B

Por Nícolas Wagner

Quando a bola rolar no Orlando Scarpelli, às 21:30 dessa próxima sexta-feira (13), para Figueirense x Juventude, o alviverde gaúcho iniciará uma trajetória que, a esta altura, é bastante incerta para os jaconeros. Após o péssimo início de temporada, que culminou na troca do comando técnico depois da eliminação precoce na Copa do Brasil e fez com que a equipe flertasse com o rebaixamento no Gauchão, a Série B inicia com um Juventude que, assim como em 2017, quando surpreendeu e brigou pelo G-4 durante a maior parte do campeonato, precisará se formar e se consolidar enquanto equipe durante a competição.

A troca de comando, anteriormente citada, de Antônio Carlos Zago para Julinho Camargo, representou uma ruptura de conceitos, motivada principalmente pela fragilidade defensiva da equipe nos primeiros jogos da temporada. Com Zago, cujo modelo de jogo priorizava a posse de bola e era bastante ofensivo, o Juventude sofreu 14 gols em 9 jogos. Além disso, problemas físicos afastaram diversos atletas por lesões musculares, limitaram muito a intensidade da equipe e fizeram com que, a três rodadas do final do Campeonato Gaúcho, Julinho Camargo chegasse para apagar incêndio. Assim, a primeira amostragem do treinador foi extremamente pragmática. Na estreia contra o Grêmio o reforçado sistema defensivo baseado em encaixes individuais ruiu quando o goleiro Matheus Cavichioli cometeu sua falha mais grave com a camisa do Juventude. Diante do São José, em jogo decisivo para se livrar do rebaixamento, a virada no 2º tempo até gerou certo otimismo. Mas quando a equipe precisou da vitória para se classificar, na última rodada, contra o Veranópolis, um Ju sem agressividade e repertório ofensivo (completou a partida sem finalização a gol) deixou o torcedor bastante preocupado para a Série B.

Às vésperas do início do certame nacional, a grande questão é saber se o Juventude de Julinho se limitará a ser um time reativo que explora a ligação direta, como majoritariamente foi nas últimas rodadas do estadual, ou se o treinador conseguirá aliar a marcação forte, característica de seus times e do futebol gaúcho, com um jogo mais elaborado ofensivamente, de bola no chão e triangulações. Esse questionamento é crucial devido às características do elenco, que tem alguns jogadores de imposição física (César Martins, Amaral, Ricardo Jesus) mas é bastante técnico, principalmente na linha de 3 do 4-2-3-1 que deve ser titular nesse início de Série B, a qual é composta por Fellipe Matheus, Leandro Lima e Felipe Lima.

Essa capacidade associativa do trio de meias, em especial Fellipe Matheus – com quem Julinho trabalhou no Boa Esporte – foi um dos principais motivadores para que o treinador elaborasse sua nuance tática ofensiva mais clara até agora. Tanto contra o Veranópolis, na última rodada do Gauchão, quanto no único teste antes da Série B, contra o Novo Hamburgo, o lateral direito (Felipe Mattioni ou Guilherme Choco) atuou em faixa mais adiantada que o lateral esquerdo (Pará ou Neuton), de modo que Fellipe Matheus, cujo posicionamento inicial é a ponta direita, pudesse ter liberdade para circular por dentro. Assim, quem dá amplitude, na fase ofensiva, é o lateral direito e o ponta esquerda (confira na imagem).

ju 1O lateral-direito (no caso, Guilherme Choco) e o ponta esquerda (Felipe Lima), dão amplitude, enquanto Fellipe Matheus busca o espaço por dentro, entrelinhas, ao lado de Leandro Lima.

Essa dinâmica, que na prática posiciona a equipe em um 3-2-5 na fase ofensiva, faz com que o zagueiro pela direita, César Martins, tenha grande relevância na saída de bola. E o ex-Flamengo, embora tenha chegado rodeado de desconfiança e, de fato, não tenha começado bem sua trajetória no Juventude, procura sempre o passe ou lançamento com intencionalidade. Se conseguir melhorar a execução – contra o Internacional, por exemplo, César errou os quatro lançamentos que tentou – a equipe poderá ter uma saída que estabeleça boas condições no campo rival. Foi o que aconteceu no único gol alviverde no jogo-treino contra o Novo Hamburgo, em que César encontrou o volante Jair entre as linhas de marcação, e este deu assistência para Ricardo Jesus marcar. Nesse sistema, quem também é fundamental na base da jogada, mas pelo lado esquerdo, é Pará, que agora jogará um pouco mais preso do que o habitual.

 Aliás, pela primeira vez desde que chegou ao Alfredo Jaconi, em 2016, Pará terá na sua reserva alguém capaz de brigar por titularidade. Trata-se de Neuton, que trabalhou com Julinho no Grêmio e estava no futebol do Chipre, onde se destacou principalmente nas bolas paradas, dando cinco   assistências para gol em 15 jogos na atual temporada. Além do lateral esquerdo, que também pode atuar na zaga, outros 8 reforços para a Série B já foram anunciados. A maioria deles são homens de confiança de Julinho, e, por mais que apenas dois – Fellipe Mationi e Jair – sejam titulares nesse primeiro momento, as longas 38 rodadas da Série B fazem crer que os recém chegados Rafael Bonfim, Bertotto, Diones, Tony, Rodrigo e Caio Rangel serão importantes em algum momento da campanha.

 Quem também não começa a Série B como titular, mas desperta expectativa é Guilherme Queiróz, artilheiro do Ju na temporada com 6 gols. Conforme afirmação de Julinho logo ao chegar ao Jaconi, o ex-atacante da Portuguesa precisa atuar perto do gol. Conceitualmente a afirmação é verdadeira, mas a prática do Gauchão mostrou um Queiróz muito prejudicado por atuar como centroavante em uma equipe com jogo direto e setores distantes. Seja como centroavante, extrema ou segundo atacante, encontrar a melhor dinâmica para potencializar o desempenho de Queiróz é fundamental para que um dos principais definidores do elenco possa ser decisivo na Série B.

 ju 2No Gauchão, tanto como centroavante quanto como extrema esquerdo, Guilherme Queiróz teve pouca participação durante as partidas. Imagem: Wyscout

Como deu para perceber, o Juventude entra na competição cercado de incertezas que precisarão de respostas para que a equipe almeje algo grande na Série B. Em relação ao ano passado, quando o time “travou” após se livrar do rebaixamento, a impressão é de um elenco com mais recursos e opções. Caberá a Julinho moldar um escrete com capacidade de, desta vez, não se limitar aos 45 pontos.

@AnaliseECJ

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