Thiago Larghi é o nome ideal para o Atlético-MG seguir seu processo de ruptura

Por Matheus Eduardo

galo 1Thiago Larghi mostra um começo bastante promissor no Atlético-MG: suas ideias de jogo e a forma com que buscou melhorias para a equipe chamaram bastante atenção. De tapa buraco a solução inesperada, o treinador faz bom trabalho neste começo de temporada pelo Galo (Foto: Bruno Cantini/Atlético Mineiro)

Após passar por mudanças contínuas, variações inesperadas e total instabilidade no ano passado, o Atlético-MG vive, na temporada atual, a ideia de reformulação. Se em épocas anteriores a marca do time era o estilo “Galo Doido” de jogar, caracterizado pelos ataques menos elaborados e mais diretos, um modo mais rápido e físico de acelerar as transições e muito talento individual para buscar as conclusões, isso acabou alterado por tendência nos últimos tempos.

A linha do tempo de treinadores e ideologias na Cidade do Galo

Em 2016, com Diego Aguirre, e em 2017, com Roger Machado, muito foi visto em tentativas de ruptura nesse modelo de jogo. Com o uruguaio, mais traços do futebol reativo, da marcação por zona (os antecessores Cuca e Levir trabalhavam com marcação individual, por encaixe) e da compactação extrema das linhas. Com Roger, alguns traços similares aos de Aguirre — como as linhas compactas e a marcação zonal em vez de encaixes individuais -, mas diretrizes diferentes: trabalho com o jogo apoiado e o ataque posicional — jogadores com posições bem definidas quando a equipe tem a bola no campo ofensivo, com funções pré-estabelecidas e facilidade para se conectarem por meio de passes e trocas. Como proposto, esse estilo mais exigente, e muito diferente do que foi trabalhado anteriormente no clube, também demandou tempo para ser absorvido, bem como a dificuldade em encaixar tudo isso com o elenco, entendendo as especificidades de cada atleta. Apesar de saber que o processo seria gradativo, o treinador acabou demitido com pouco mais de seis meses de trabalho.

O porquê de citar essa linha do tempo com os treinadores atleticanos é bem claro. É evidente que o clube busca uma nova maneira de ser competitivo e buscar grandes títulos, como conseguiu em 2013 e 2014, mas está ainda mais nítido que o futebol mudou muito desde então. No meio do caminho, o Atlético ainda não encontrou uma forma de se “readaptar” a essas atualizações, combinando a sua essência de jogo com o que mais lhe rendeu vantagens anteriormente, com a organização cada vez mais exigida nos aspectos coletivos dentro do Brasil nos últimos anos. Tanto Aguirre quanto Roger Machado trazem qualidades da “nova linhagem” de treinadores, mas não conseguiram, seja pela visão equivocada de quem organiza o futebol dentro do clube ou pelo insucesso em alguns aspectos de seus respectivos trabalhos, completar essa ruptura. Na continuação dessa ideia vemos Thiago Larghi, e aqui entra a importância de sua filosofia de jogo para pensar em novos passos.

Do que foi visto no Atlético desde a demissão de Oswaldo de Oliveira há muitas alterações em pouco tempo, seja pela reformulação do elenco após perder peças importantes do último ano ou pela necessidade de mudança após tantos insucessos em uma mesma temporada. Larghi pega uma equipe em formação e, aos poucos, implementa conceitos e define uma identidade para o time. Em desempenho, ainda não é muito brilhante, mas demonstra que pode evoluir e, mais importante que isso, precisa de tempo para fazer funcionar. É um filme que se reproduz na Cidade do Galo pela terceira vez em três anos.

Formação ofensiva encabeçada por Cazares e Otero em 2018

Diante do Cruzeiro, o Atlético fez sua melhor partida no ano até aqui. Muitas vezes caracterizado como um time reativo, o Galo se viu na necessidade de trabalhar melhor a posse de bola diante de um adversário que tem em seu treinador a virtude de se retrair e explorar um erro do adversário para contra-atacá-lo. Com algumas características similares às dos antecessores citados no texto, Larghi implantou conceitos que melhoraram o repertório do seu time e possibilitaram ao Atlético abrir boa vantagem na decisão do estadual.

Desde que encontrou uma espécie de embrião do time titular, com o trio de meias composto por Luan e Otero a partir das pontas, além de Cazares, a forma de jogar melhorou. Antes um “10” mais avançado, o equatoriano agora faz o papel de um meio-campista que recebe a bola na base da jogada, muitas vezes ainda no campo defensivo, e percorre o gramado com o intuito de associar-se e criar superioridade numérica nas jogadas ofensivas. Se você ataca com mais gente, há mais chances de chegar até o gol adversário com facilidade. Seguindo essa lógica, o Atlético tem conseguido atuar de maneira mais coesa e criar mais oportunidades de gol.

galo 2Mapa de calor de Cazares na vitória diante do Cruzeiro: equatoriano tem sido responsável por uma nova função desde que reassumiu a titularidade com Thiago Larghi, agora ocupando diferentes espaços do campo para facilitar a construção do jogo e a circulação da bola (Footstats)

O fato de Cazares estar em todos os cantos facilita para que jogadores de velocidade se infiltrem e/ou consigam espaços para participar diretamente dos gols. Dentre os que mais evoluíram nos últimos meses, o venezuelano Rómulo Otero é protagonista nesse tipo de situação. Não só pela marca registrada que é o seu sucesso nas bolas paradas — ambidestro, cobra escanteios com os dois pés e possui extrema potência/efeito em suas cobranças de falta -, o ponta tem participado cada vez mais dos gols da equipe e se tornou protagonista neste modelo de jogo, tanto pela sua maneira veloz e incisiva de conduzir a bola quanto pela facilidade em acionar os companheiros. Até aqui, Otero é o jogador com mais passes para gol no futebol brasileiro em 2018: já foram nove assistências dadas.

Com os jogadores bem escalonados, especialmente após a consolidação do novo 4–3–3, o que se vê frequentemente são triangulações formadas entre jogadores, geralmente de mesmo setor, para criar superioridade e buscar finalizações. Quando não se juntam por meio de passes, eles se movem em contragolpes.

galo 3Triangulação que gerou chute do lateral Patric: o ponta Luan deu espaço para os dois meias se juntarem e a troca de passes e posições confundiu a defesa do Cruzeiro. Movimentação constante é um dos pontos fortes do Atlético no ano
galo 4No duelo anterior, diante do América, o mesmo trio aparece em conjunto para começar contra-ataque que gerou gol de Elias: Cazares recupera a bola e, aproximados, os três seguem em contragolpe. Combinação gera efeitos com posse de bola ou de modo reativo

Se por muito tempo houve indefinição quanto à participação de Erik, Roger Guedes e Tomás Andrade, agora é perceptível que cada um deles tem papel importante em determinadas situações. Em jogos da Copa do Brasil, Erik participou como um “falso meia”, que se colocava por dentro para ajudar na pressão para retomar a bola nas entrelinhas e para se associar aos companheiros nos lances de velocidade na fase ofensiva. O também ex-Palmeiras Roger Guedes começou a temporada tendo mais minutos, mas não mostrou consistência e concentração para ser o jogador adequado a produzir jogadas a partir da ponta direita; Tomás Andrade, embora seja um bom passador e tenha bons movimentos partindo da perna canhota, ainda não é um jogador tão efetivo em todas as ações e, no novo modelo de 4–3–3 atleticano, só poderia atuar nas vagas de Luan ou Cazares, jogadores mais “preparados” que o argentino. Em meio a isso, todos se mostram boas opções para o treinador aproveitar no decorrer do ano, combinando características de velocidade, criação e conclusão, mas com funções específicas a se desenvolver, especialmente no que se refere às transições — ofensiva e defensiva.

No setor de conclusão, a troca de Fred/Robinho — um condutor de bola nos espaços vazios, com o intuito de chegar perto do gol e concluir, e outro especialista na área, capaz de garantir gols e dominante no trabalho de pivô e aproximação — por Ricardo Oliveira trouxe muitas mudanças na forma de jogar da equipe. Se antes havia um time menos veloz e mais dependente do talento de seus atacantes mais avançados, agora todo o trabalho se dá desde o campo de defesa. O centroavante ex-Santos é diferente dos seus antecessores: ataca espaços, trabalha na progressão, participa dos passes, garante gols e também ajuda muito na fase defensiva, até pela maior mobilidade e o bom físico que possui. Com as tantas virtudes, se tornou uma unanimidade à frente e é peça essencial para segurar a bola e ajudar na organização dos ataques. Além de tudo, também tem assegurado gols para o time: já foram nove marcados desde que começou a temporada.

galo 5O 4–3–3 (fase ofensiva) / 4–1–4–1 (fase defensiva) do Atlético: destaque para os movimentos dos jogadores na segunda linha de 4, um dos pontos mais diferenciais desta equipe na nova formação

Adilson como expoente e diferenças na construção

A construção de jogadas passa por muitas mudanças desde que Larghi assumiu o time. Se antes, com Oswaldo, Arouca era o responsável pela circulação e passava para os velocistas a levarem ao ataque, com poucos lançamentos, agora a intenção é levar a bola à frente com os volantes. Isso também explica o retorno e a consolidação de Adilson na vaga que antes era de Arouca, até pelo fato de o ex-Grêmio ser um jogador mais intenso, melhor em disputas físicas e capaz de levar a bola à frente conduzindo-a, e não necessariamente passando-a para o jogador mais próximo. Além disso, entra a facilidade de retomada do meio-campista como bom complemento aos jogadores mais velozes que a esperam mais à frente.

A partir disso, há dois direcionamentos: o passe ou a subida em velocidade. Quase sempre, o Atlético ataca de maneira mais vertical, sem tanta elaboração por dentro. Até para facilitar o trabalho para os jogadores geralmente titulares, tudo é mais direto, em poucos toques e ações que levam ao último terço do campo para cruzamentos e/ou jogadas individuais, além das tantas finalizações de média /longa distância. Como elemento extra, está um meio-campista infiltrador (Elias/Gustavo Blanco) que tenta aproveitar espaços entre as linhas e facilita a escolha por jogar de maneira mais vertical. Mas, pensando em melhorar a elaboração das jogadas e facilitar para que a bola chegue “limpa” à frente, os últimos jogos têm sido diferentes no sentido de trabalhar a posse de bola, e a escolha por Cazares como um terceiro homem de meio acaba justificada pelo fato de o meia ser um dos jogadores de melhor qualidade nos passes dentro do elenco.

Quando sai jogando desde o seu goleiro ou defensores, o Atlético tem optado por mais passes curtos, o que se tornou uma surpresa, seja pela mudança de modelo ou pela característica dos seus jogadores. Com sérios problemas no jogo com os pés, o habitual era ver o goleiro Victor sair com chutões, o que mudou bastante há algumas semanas. Para conter alguma superioridade, ficam pelo menos seis jogadores próximos no campo defensivo, o time sai rasteiro e tenta, com intuitos, levar a bola de maneira direta em alguns casos. Geralmente, há duas variáveis para o lançamento mais longo: buscar Ricardo Oliveira no jogo de pivô ou acionar os pontas por fora. A partir daí, o ataque fica mais acelerado e a busca pelo gol fica mais intensa.

galo 6Saída de bola atleticana com seis atletas de linha na base da jogada: os quatro defensores e dois meio-campistas protegem o espaço no caso de uma eventual perda, ao mesmo tempo em que ocupam posições para receber a bola em caso de necessidade. No campo ofensivo, jogadores bem abertos para receber, já que o direcionamento quase nunca é em sair com a bola por dentro, mas ligar os atacantes nas beiradas ou Ricardo Oliveira na referência (SporTV)

Posicionamento, postura e transição defensiva

Uma das grandes diferenças do time atual para o time que fechou o ano passado é a sua transição defensiva, bem como o posicionamento dos seus jogadores quando a equipe é atacada. Se durante os últimos meses de 2017 pouco se sabia sobre como era a postura sem bola da equipe — se a marcação era por zona, individual ou mista; por que o posicionamento dos jogadores era desorganizado, qual era o bloco que o time se posicionava, etc. -, agora tudo isso fica bem definido quase sempre.

Em jogos habituais do Mineiro e da Copa do Brasil, há, geralmente, duas posturas comuns: gradativamente subir a marcação e pressionar as equipes menos qualificadas com a bola nos pés, forçando erros no campo ofensivo ou manter o bloco médio/baixo e pressionar as linhas de passe do adversário, forçando a erros na transição. Com a equipe bem posicionada e próxima de uma saída forte em contragolpe, geralmente o que acontece é optar por essa segunda escolha.

galo 7Momento defensivo atleticano: marcação por zona, em que se anula os rivais protegendo o espaço — o rival tenta sair com a bola desde trás, enquanto os jogadores do Galo bloqueiam todas os potenciais receptores do passe a partir do grande círculo. Disposto no 4–1–4–1, o quarteto na penúltima linha se concentra em interceptar a saída vertical do adversário. Do meio para trás, espaços quase que totalmente protegidos e o time postado em bloco médio (SporTV)

Foram poucos os momentos em que os adversários ficaram muito tempo com a bola e impuseram uma condição de domínio a ponto de “empurrar” o time do Atlético para trás. Diante do Cruzeiro, chegou a acontecer quando o time celeste trabalhou um pouco mais o jogo com posse. Como antídoto, o conjunto atleticano adotou uma prática de proteger a própria área a todo custo, com uma linha de seis jogadores atrás e os meio-campistas próximos para evitar qualquer infiltração do rival. O sistema lembrou bastante o plano defensivo adotado pela Juventus diante do Barcelona nos confrontos das quartas-de-final da Liga dos Campeões da última temporada, em ocasião que os italianos saíram do confronto de 180 minutos sem sofrer nenhum gol do temido ataque barcelonista.

No Horto, com proporções bem diferentes, também surtiu efeito. Noventa minutos e apenas um gol do rival, além da vitória obtida.

galo 8Proteção da própria área, com seis jogadores na última linha e mais dois avançados evitando que alguma infiltração surta efeito. No lance em questão, notando a falta de espaços e os companheiros para recepção de passe bem marcados, Egídio arrisca de longa distância e Victor faz boa defesa

O ponto que mais chamou a atenção foi o único “calcanhar de Aquiles” alvinegro no clássico. Diante do Cruzeiro, apenas três chances de muito perigo do rival, além do gol. Das quatro, três em contragolpe, com superioridade do rival ou lances de mano a mano. No tento marcado por Arrascaeta, o time celeste chegou à área atleticana com igualdade numérica e concluiu com facilidade, em um dos raros momentos que conseguiu adentrar na área do rival.

galo 9Situação de 5×5 no contragolpe cruzeirense: em velocidade, Sassá, Thiago Neves e Arrascaeta conseguem superar os movimentos da defesa do Atlético e encontram o gol no clássico

Prática que pode levar à evolução

No que se nota, o coletivo do Atlético segue a tendência de evoluir a cada partida. Com sequência e absorção de conceitos, o que se imagina é que o desempenho seja cada vez melhor quanto à execução do que planeja. A prova maior disso é que, atualmente, o trabalho coletivo é bem mais eficaz do que era há algumas semanas, e é possível dizer que o time está em seu melhor momento na temporada logo no final do Mineiro. Bem como no ano passado, o trabalho demorou um pouco para, enfim, decolar.

Muito se espera desta equipe em detrimento das peças que o elenco possui. Ao que mais se observa, o Atlético é capaz de render bem no estilo reativo, até por possuir um elenco bem mais veloz e imprevisível do que o do ano passado, quando o plano inicial em 2017 era um jogo associativo e com posse de bola, prioritariamente. Também, no que é visto, Larghi tenta desenvolver um leque de qualidades maior na equipe, especialmente visando a disputa do Brasileiro, com um nível de exigência alto.

Pelo que tem sido os últimos jogos, as adaptações e o trabalho que, ao menos parcialmente, tem agradado boa parte da torcida, tanto no desempenho em campo quanto nos resultados — venceu 10 dos seus 14 jogos no comando do time (73,8% de aproveitamento), tendo passado 9 destes sem sofrer nenhum gol -. Se nas tentativas anteriores de ruptura sempre houve certas barreiras quanto à execução dos trabalhos e a percepção de melhorias, a caminhada com Thiago Larghi apresenta alguns traços diferentes: talvez o treinador tenha conseguido encaixar um pouco da nova percepção de futebol com traços enraizados no modo de jogar do Atlético. A velocidade dos ataques e o modo mais direto em alguns momentos — com fortes traços de talento e bola parada -, aliados às adequações e ajustes coletivos necessários deixam tudo com mais “cara de Galo”.

galo 10Os 14 jogos do Atlético sob o comando de Thiago Larghi: em pouco menos de dois meses foram 10 vitórias em 14 partidas. Em uma das derrotas, ainda houve classificação nos pênaltis, pela Copa do Brasil. Ao todo, 24 gols marcados e 6 sofridos no período. Somando os dados às evoluções em nível de atuação, é pouco para ser efetivado? (Soccerway)

Pode ser um trunfo para que ele consiga se estabelecer no clube e manter um projeto bastante interessante. O técnico, que já admitiu ter referências de gigantes na profissão, como Arrigo Sacchi e Pep Guardiola, parece ser mesmo um profissional bastante promissor. Por que não dar o voto de confiança? Chegou a hora de mais uma ruptura, conteúdo e desempenho há de sobra.

Não deixe de acompanhar as análises.

@matheusesouza

 

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