COMO É GOSTOSO VENCER ESSA COPA DO MUNDO! Força brasileira no campo e nos bastidores: a copa de 1962.

Por Ícaro Caldas

Depois de duas copas na Europa, novamente um país sul-americano foi escolhido para acolher o torneio: o Chile. E o fez corretamente, mesmo tendo conhecido, dois anos antes do evento, o mais violento terremoto do século xx.

A copa de 1962 teve dezesseis participantes, como acontecia desde 1934, exceto na primeira disputa pós-guerra, em 1950, quando somente treze países compareceram. Pela regra criada em 1938, estavam garantidos que o dono da casa e o último campeão; os demais deveriam sair das Eliminatórias, que tiveram 54 inscritos e selecionaram dez países europeus e quatro latino-americanos. A competição foi jogada em apenas quatro estádios, em claro contraste com os doze utilizados na Copa anterior e menos que os oito em 1934, dez em 1938, seis em 1950 e 1954, é somente três em 1930.

No Brasil, ao otimismo geral de 1958 sucedeu um estado de tensão em 1962. O país era sacudido por movimentos sociais esquerdizantes, incentivados pelo governo de João Goulart como instrumento para impor suas reformas, e as greves tornaram-se frequentes, passando de 31 em 1958 (20% das quais no setor público) para 172 em 1963 (58% delas no funcionalismo). Aos problemas da política interna somavam-se os da externa: nas discussões sobre a exclusão da Cuba castrista da Organização dos Estados Unidos (OEA), votada em Janeiro de 1962, o governo brasileiro optou pela neutralidade na questão, alimentando ainda mais o descontentamento e o receio dos setores de direita. A situação econômica não abrandava o quadro. Pelo contrário: a inflamação, que tinha sido de 26,3% em 1960, passou a 33,3% em 1961 e pulou para 54,8 em 1962.

Enquanto na vida política muita gente aspirava a grandes mudanças, no futebol procurava-se manter tudo como antes. Na comissão técnica da seleção, a única alteração importante foi forçada pelos graves problemas de saúde de Vicente Feola, substituído por alguém de perfil semelhante, Aymoré Moreira.

A equipe que jogou a final em Santiago tinha somente três mudanças em relação àquela que jogará a final em Estocolmo, é uma delas devia-se à contusão de Pelé, com Amarildo em seu lugar. Até mesmo o avião e o piloto que levaram a delegação para o Chile foram os mesmos da viagem para a Suécia, quatro anos antes. Durante pelo menos os meses de maio e junho, o futebol funcionou no Brasil, mais uma vez, como válvula de escape à qual o governo não hesitava em recorrer e que a população não se recusava a aceitar. Antes de a delegação embarcar, Janto recebeu-a em Brasília para um almoço com todo o seu Ministério. No retorno dos bicampeões mundiais, após, recepcioná-los festivamente e beber uísque na taça Jules Rimet, o presidente celebrou a “vitória da nação” e decretou feriado nacional no dia seguinte.

O interesse político do governo brasileiro pela Copa talvez tenha contribuído para seu resultado. Diante da expulsão que poderia tirar Garrincha da partida decisiva, o primeiro-ministro Francisco Brochado da Rocha contatou a FIFA. O jogador brasileiro e o chileno Honorino Landa, também expulso no mesmo jogo da semifinal, foram julgados pelo tribunal esportivo da federação no dia seguinte. Enquanto o chileno foi suspenso para disputa do terceiro lugar, Garrincha foi absolvido graças ao relatório lacunar do árbitro peruano e à providencial viagem do bandeirinha Uruguaio (que havia trabalhado no futebol paulista alguns anos antes), que poderia testemunhar contra o jogador brasileiro. Antes disso, na fase de grupos, em partida apontada por um chileno e bandeirada pelo mesmo uruguaio, o Brasil tinha sido beneficiado pela não marcação de um pênalti quando perdia de 1 a 0 para a Espanha, que teve ainda um gol incorretamente anulado.

A copa do Chile trouxe à tona um assunto que seria futuramente muito discutido: o doping.62 1

PARTE TÁTICA:

Nessa copa, Zagallo começou a jogar tão recuado que o sistema começou a ser chamado de 4-3-3.

62 2Imagem: Livro a Pirâmide Invertida, Jonathan Wilson.

“No Chile, nós sempre tínhamos que levar em consideração a questão da idade”, explicou Aymoré Moreira, que substituiu Feola, com a saúde deteriorada, mas selecionou um time semelhante para a Copa do Mundo seguinte. “por isso nossas táticas foram menos flexíveis do que muitos poderiam esperar, utilizar cada jogador de acordo com o rendimento do time. Por exemplo, Didi era cada vez mais o jogador ideal para ficar no meio de campo e bloquear os adversários por aquele setor […]. Zito, mais rápido e mais dinâmico, podia recuar e avançar, e aguentava os noventas minutos fazendo isso. Por isso, pela necessidade de adaptar o papel de um jogador ao de outro, a elasticidade dos ataques foi limitada —- com esta grande compensação: todos os jogadores tinham liberdade e habilidade para se valer da própria iniciativa e criar variações”.

A maior compensação de todas, no entanto, foi Garrincha. Os adversários muitas vezes empregavam dois ou até três jogadores para marcá-lo, e ele simplesmente passava por todos. Pelé jogou apenas as duas primeiras partidas no Chile antes de se machucar, mas Garrincha foi suficiente. Ele perdeu um pênalti, porém marcou duas vezes na vitória sobre a Inglaterra por 3 a 1 nas quartas de final e fez mais dois gols na vitória por 4 a 2 sobre o Chile, na semifinal, jogo em que também acabou expulso. Sua suspensão foi revista e ele pôde jogar a final, apesar de não ter se destacado. Isso, contudo, não teve importância: 1962 foi a copa dele, o triunfo final do ponta antes do ocaso iniciado na metade dos anos 1960.

Em um artigo para A Gazeta em 1949, Mazzoni escreveu:

Para o inglês, o futebol é um exercício Atlético; para o brasileiro, é um jogo.

O inglês considera um incômodo o jogador que dá três dribles em sequência; o brasileiro considera um virtuoso.

O futebol inglês, bem jogado é como uma orquestra sinfônica; bem jogado, o futebol brasileiro é como uma banda de jazz.

O futebol inglês exige que a bola se mova mais rápido que o jogador; o futebol brasileiro exige que o jogador seja mais rápido que a bola.

O jogador inglês pensa; o brasileiro improvisa.

Ninguém exemplicava essa diferença como Garrincha. No São Paulo, Guttmann teve um ponta-esquerda chamado Canhoteiro, que era visto como o “Garrincha canhoto”. “As táticas”, disse Guttmann em certa ocasião, após ser brilhantemente ignorado por Canhoteiro uma vez mais, “são para todos, mas não valem para ele.” A beleza de jogar com quatro na defesa estava no fato de, embora não fosse esse o propósito do sistema —- como Viktor Maslov e Alf Ramsey provariam —-, permitir que jogadores tão talentosos assim brilhassem. O mundo logo entendeu o recado, e, na copa do mundo de 1966, o W-M já fazia parte da história.

Twitter: @Caldas_icaro

Instagram: caldas_icaro

#AprendemosJuntos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s