O CARIOCA TEM QUE ACABAR – Análise Fluminense x Vasco

Por Ricardo Leite

O campeonato Carioca tem que acabar. Você provavelmente já ouviu essa frase. Aliás, vou além. Você muito provavelmente concorda com essa frase. O Carioca está falido. O nível técnico é abaixo da crítica. Os estádios e gramados não são propícios para se praticar o bom futebol. A média de público (até nos clássicos) é absurdamente baixa. O regulamento é confuso. Ruim. A federação não pensa e não se preocupa em pensar na evolução do futebol carioca.

Tudo isso a gente já sabe. Mas a realidade é que não somos capazes de dizer isso pro coração.

Quando começa um clássico decisivo, não tem torcedor que não xingue o árbitro por aquele pênalti não dado. Ou por aquele dado contra o seu time.

Não há quem não vá a loucura quando seu centroavante perde gol claríssimo contra o maior rival.

Mas em 2018 não podemos reclamar de falta de emoção nas fases finais dos turnos e das semifinais do Carioca. Muitos gols, provocações em campo, provocações nas arquibancadas, viradas, polêmicas e até herói improvável. Como bem pede os clássicos decisivos.

No jogo entre Vasco x Fluminense, o Vasco mudou muito o seu time (tanto por estratégia, quanto por contusões), enquanto o tricolor optou por manter o time titular que vinha (e vem) em nítido progresso.

O treinador vascaíno adiantou Pikachu para linha de 3 do meio campo (pela direita) e utilizou Rafael Galhardo como lateral. Essa mudança teria duas justificativas plausíveis: Colocar Pikachu para jogar no espaço deixado por Ayrton (que tem se destacado pelo apoio ofensivo no Fluminense). Ou melhorar a marcação e cobertura daquele lado esperando conter as ações ofensivas do Ayrton. E deu certo para as duas situações. Galhardo, que teve um começo muito ruim no Vasco, sobretudo pela sua condição física (estava muito abaixo dos demais e isso ficava evidente assim que os jogos engrenavam) teve uma atuação sem sustos e até com algumas qualidades. A estratégia do Zé Ricardo, muito contestada antes do jogo (inclusive por mim), fez com que o Vasco empurrasse Ayrton pra trás e o Vasco “ganhasse campo”. Com isso o Vasco começou melhor. O jogo na verdade começou muito pegado e com muitas faltas, mas o Vasco era mais organizado, pressionava rapidamente o detentor da bola (mesmo sem marcar tão alto quanto os jogos contra o Botafogo). Além disso os jogadores de ataque do Vasco marcavam bem Richard, Jadson e os dois alas do adversário,gerando problemas para os três zagueiros do time do Abel fazerem uma boa saída de bola.

4Defesa do Vasco bem postada. Em absoluta superioridade numérica. Bem compactada. E pressão no detentor da bola.

Com mais intensidade e anulando os pontos fortes do fluminense, o Vasco abriu o placar. Giovanni Augusto chutou firme após bela jogada de Pikachu pelo lado esquerdo.

O Vasco melhorou após o gol, mas as falhas individuais voltaram a assombrar o Gigante da Colina. Fabrício cochilou na marcação do Gilberto e o jogador teve toda liberdade para encontrar Pedro (que era acompanhado de longe por Wellington) na área. O menino não perdoou.

2Defesa bem postada. Em superioridade numérica. Mas falha individual do Fabrício permite a Gilberto avançar com liberdade para efetuar a assistência para Pedro.
2Wellington marcava Pedro de perto.
3Mas não acompanha a movimentação do centroavante tricolor e permite que ele finalize tranquilo.

Apesar do empate o Vasco manteve sua forma de jogar e era mais sóbrio e sólido em campo.

Mas logo no início do segundo tempo, em falha primária, Wagner perde a bola na intermediária e Galhardo é obrigado a cometer falta. Em falha grotesca, a barreira abre e Sornoza faz de falta. Nesse momento o Vasco se perdeu. Precisava de dois gols e se viu abalado psicologicamente pela falha. Simplesmente não tinha mais organização e estratégia para tentar vencer as linhas defensivas do adversário.

O Vasco não se movimentava, não mantinha a posse inteligente. Se limitava a chutar pra frente buscando um milagre. E além disso o Fluminense que dominava o segundo tempo, ainda era extremamente perigoso nos contra ataques. A ponta de esperança veio do banco. Precisando da vitória a qualquer custo, Zé Ricardo chamou Paulinho. E foi da ousadia e qualidade do menino que veio o lindo e importante gol de empate, que colocou o Vasco de volta ao jogo.

O Vasco teve algumas oportunidades de explorar as infiltrações verticais entre os zagueiros do Flu (como bem destacamos essa fragilidade antes do jogo). Mas os meias não insistiram ou não tiveram êxito nesse tipo de jogada. Veja uma foto abaixo:

5O Vasco teve os espaços verticais entre os zagueiros como nesse lance. Veja que Riascos e Rios se movimentaram no espaço vazio. Mas explorou pouco esse tipo de lance.

À essa altura, o histórico de vitórias do Vasco sobre o Fluminense gritava na cabeça de cada espectador e ator do espetáculo. O gol do Vasco não era uma questão de merecimento era da magia que envolve o clássico. Do lúdico. Do esperado, mesmo quando se mostra inesperado. Era o fim de novela que todo mundo prevê, mas mesmo assim assiste até o fim. O que ninguém imaginava é que o vilão do Vasco (pior em campo, falhando nos dois gols sofridos), se casaria com a “mocinha” (torcida) aos 49 do segundo tempo. Fabrício (que foi gigante em sua entrevista) viu a bola sobrar no seu pé esquerdo. Ele não pensou duas vezes. Ele não sabia, mas o DESTINO já tinha separado pra ele o papel de protagonista. Vilão e herói na mesma trama. Ele soltou o pé, meio sem ângulo mas a bola entrou, estufando as redes de Júlio César. Gol do Vasco. Gol de gana. Gol do Vasco da GANA.

O Vasco até tentou vencer no plano tático, na maioria das vezes no 4-1-4-1 com Giovanni Augusto flutuando entre as linhas defensivas do Fluminense. Ora pela esquerda, ora centralizado. Ate tentou vencer com Pikachu buscando dar amplitude. E até tirando Paulão para colocar Thiago Galhardo. Com isso Desábato foi recuado para a zaga e compôs a linha defensiva com Erazo. Tentou vencer na organização e na estratégia. Mas em clássico, as vezes isso é pouco. E aí aparece aquele senhor romântico, saudosista, suplicando pela continuidade do estadual e da rivalidade sadia entre os clubes.

É a voz do coração em meio a tanta razão dizendo o contrário. O Carioca respira. E que venha a final.

 

@analisevasco

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2 comentários sobre “O CARIOCA TEM QUE ACABAR – Análise Fluminense x Vasco

  1. Quando li o título, discordei, porém, ao ler, vi o excelente texto que escreveu. Defendo a continuidade dos estaduais, porém, sem fórmulas complicadas e com jogos decisivos. Exemplo do Carioca: Dez equipes jogando entre si em dois turnos, as três últimas rodadas decisivas de cada turno seriam de clássicos, os campeões de cada turno fariam a decisão. Simples, disputado e atrativo. Abraço.

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