A TRÍADE OFENSIVA DO LIVERPOOL E SEU MENTOR

Por João (Panda)

liv 1Foto: Youtube

O método de jogo instalado por Klopp na Inglaterra atingiu seu ápice, nesta temporada. O técnico alemão conseguiu encaixar as peças do seu jogo de extremo vigor e mostra um futebol que encanta, não somente a terra da Rainha, mas também o mundo. A chegada de Mohamed Salah, inicialmente considerado uma ótima aposta para formar o trio de ataque com Sadio Mané e Roberto Firmino, se transformou na melhor contratação da temporada na Inglaterra. Muitos inclusive pedem a bola de ouro ao egípcio (concorre somente com Messi, enquanto De Bruyne e outros correm por fora). Sem falar em ser um dos poucos sistemas em toda Europa que conseguiu bater de frente e se sobrepor ao Manchester City de Pep Guardiola. E o ecossistema criado por Jürgen não somente potencializou o talento dos atacantes, mas o de um time inteiro que anteriormente era considerado mediano/bom. Quem diria a algum tempo atrás que viríamos Emre Can ou Robertson atuando em tão alto nível? A chegada de Salah foi somente o estímulo necessário para que as engrenagens dos Reds se encaixassem e então revelasse esta máquina de fazer gols e estraçalhar linhas defensivas.

“O que é velocidade? A mídia esportiva sempre confunde velocidade com visão. Veja, se eu começar a correr antes que os outros vou sempre parecer mais rápido.” (Hendrik Johannes Cruijff)

Esta frase de Cruyff (curiosamente o grande mentor de Guardiola) explica um pouco de como funciona o método de jogo do Liverpool. Praticando uma mutação do antigo jogo direto, Klopp requinta as habilidades de seus avançados. Mas o estilo de jogo direto não é no sentido de lançamentos diretos ou bolas rifadas, e sim no sentido de passes que correm longas extensões de gramado. Poucas vezes com uma influência direta da região de meio (dificilmente vemos jogadas relacionando os meias entre eles mesmos. Normalmente os médios atuam somente como uma ponte para, justamente, ligar a defesa e ataque de um modo que não seja por ligações diretas). A partir deste estilo de jogo direto há a melhora exponencial de jogadores como Mané, Salah, Firmino e até Oxlade-Chamberlain.

No time da cidade dos Beatles vemos a junção, na medida certa dos estilos de Beckenbauer e Cruyff. A potência, característica dos alemães, e a inteligência dos holandeses. Velocidade, força, capacidade de localização e jogo mental são as principais armas disponíveis para os Reds buscarem vencer, mais uma vez, Guardiola, este ano. Nas próximas linhas buscarei demonstrar estas características e de que modo o Liverpool, provavelmente, jogará contra os Citizens.

Metodologia e tática

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Normalmente a equipe se posta no 4-3-3 inicial. Como já citado, a ideologia de jogo ditada por Klopp é o jogo direto modificado. O ex-treinador do Borussia Dortmund também introduziu a filosofia do futebol líquido (ideia de jogo que busca um futebol praticado com base em conceitos, tirando de lado as posições fixas e dando mais valor às funções no campo). E uma das variáveis aciona a outra. A partir da velocidade proporcionada pelo jogo direto há uma fluidez posicional tremenda que envolve os adversários em um caos em que Salah, Mané ou Firmino se aproveitam e partem para jogadas individuais nos últimos metros que desequilibram o jogo e conduzem os Reds para a vitória. Um exemplo desta movimentação é o grande uso de diagonais longas acionadas ora pelos laterais/alas ou pelos centrais (a chegada de Van Dijk somente potencializou este processo). Além deste movimento ofensivo há também a variante de sair a bola por meio da saída lavolpiana (saída com 3). Henderson se firma entre os zagueiros, que abrem, e possui um campo aberto para praticar lançamentos ou promover triangulações entre os laterais e meias. Na falta de Henderson é comum ver o zagueiro direito se firmar no meio e Joe Gomez, ou Alexander-Arnold, ir para a posição de zagueiro. Enquanto isso, Robertson possui muita liberdade para oferecer amplitude e atacar as linhas de defesa adversária.

Inclusive aí está mais um fator exemplar do futebol líquido de Klopp. Robertson varia muito entre lateral-ala-ponta e Gomez/Alex-Arnold varia entre lateral-zagueiro-ala. O time apresenta uma variação tática tão intensa que, costumeiramente, utiliza o 2-3-5. liv 3Movimentação média dos jogadores do Liverpool no confronto contra o West Ham.

A pressão e a linha alta foram tantas que é possível ver claramente um 2-3-5 (dentro do ideal). Alex-Arnold e Robertson atuam muitas vezes na temporada como pontas. Atacando as linhas laterais e participando da transição ofensiva.

Outro aspecto interessante de analisar é a presença de “falsos-pontas” (em outras palavras são atacantes de lado que caem por dentro puxando a marcação dos laterais, criando espaços para subidas dos laterais e contribuindo com as construções ofensivas por dentro.

Agora passando a relação defensiva da equipe. Diferentemente do que é dito, é uma equipe que desenvolve-se muito bem nas questões defensivas. As poucas falhas que ocorrem são as coberturas entre laterais (jovens, por sinal) e os zagueiros. Inclusive problema que vem sendo muito trabalhado desde o início da temporada e já evoluiu, agora está oferecendo muito menos chances aos adversários do que no início da Premier League. Com a chegada do “xerifão” Van Dijk a zaga está ainda mais segura e oferece pouca preocupação.

Falando da formatação defensiva: É comum vermos o time de Klopp se defendendo no 4-4-2 ou 4-1-4-1. Chamberlain, quando joga, ocupa o espaço que teria que ser preenchido por “Moh” Salah, o egípcio então fica descansado das atividades defensivas e muito mais perigoso nas construções ofensivas. Sadio, geralmente, ocupa a subida do lateral direito oposto em ambos esquemas.

Salah, Firmino e Mané

Decidi propor uma parte do texto especialmente a um dos trios mais mortais do futebol mundial. Com muita velocidade e uma disposição fora do comum, os três atacantes se completam e trazem cada vez mais alegrias a Anfield. Potencializados pelo jogo direto, já supracitado, a tríade se mostra madura e capaz de remontar ataques louváveis de pouco tempo atrás. Protagonizados seja por Luis Suárez, Fernando Torres ou até Michael Owen.

O time se constrói e transita no campo ofensivo, sempre tendo como base, Firmino protagonizando a função de um clássico falso-9 (promovendo espaços entre as linhas e vindo buscar o jogo muitas vezes) e Salah e Mané como meia atacantes/falsos-pontas. A contribuição dos três é tão significativa que eles participaram diretamente (entre gols e assistências) de TODOS os gols do Liverpool na Premier League (73).

E concentrando a análise um pouco mais no atacante egípcio, podemos perceber o quanto a função de ponta por dentro o alçou a níveis nunca imaginados. Em tempos de Chelsea ele foi sempre utilizado como atacante de beirada com intensa obrigação defensiva. Este não é o jogo de Salah. E Klopp percebeu isso. Depois de passar boas temporadas entre Fiorentina e Roma, Mohamed Salah Ghaly finalmente se firmou na Premier League e tem tudo para disputar a bola de ouro de com Lionel Messi. Mas voltando ao trio, a seguir um quadro ilustrativo com seus números na Premier League e Champions League (Estatísticas: Whoscored)

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Mais um fato importante de lembrar, o ataque do Liverpool é a quantidade de gols dentro da área entre o pênalti e o gol. Isto exemplifica o quanto os passes longos e entrelinhas ocasionam momentos de desenvolvimento pessoal de qualquer um dos três. Assim como a grande presença ofensiva dos laterais, com bons cruzamentos “rasantes”, que ocasionam gols nesta área e exemplificam o 2-3-5 na etapa ofensiva.

Assim como é importante destacar o grande número de assistência do “centroavante” Roberto Firmino”. Embora ele continue praticando a função de falso-9, é sempre importante ressaltar que a sua presença como atacante de ofício é fundamental. Principalmente na questão posicional. Fornece a função de pivô para tabelas ou triangulações, oferece profundidade necessária para prender os zagueiros e flutua, vindo buscar o jogo muitas vezes na linha de meio campo. Como mostrado na imagem a seguir um destes movimentos:

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No jogo contra o City (4×3 para o Liverpool) foi possível ver o movimento de disputa pela bola na zona central e o deslocamento que prendeu Fernandinho.

Ao vir buscar o jogo e disputar a bola na zona central, Firmino abriu uma lacuna na defesa do City, que não foi suprida. Enquanto isso, Salah e Mané ofereciam amplitude e prendiam o lateral direito e Otamendi (repare que Delph saiu de sua posição na lateral esquerda para dar combate a Firmino no meio), tendo somente um zagueiro central na cobertura. Após vencer a disputa de bola, Roberto faz um passe simples a Chamberlain que, na velocidade, vence facilmente Fernandinho e Delph. Tendo um espaço a sua frente e somente um zagueiro para ultrapassar, Oxlade parte para a jogada individual e, com um chute de fora da área, abre o placar.

Outra característica que anda sendo suplantada na região de Meyerside é a característica da saída sustentada. Utilizada pela seleção brasileira inclusive, a saída sustentada se baseia na concentração de jogadores de meio e defesa na saída de bola enquanto os atacantes, normalmente em 3, oferecem profundidade e amplitude a equipe com a bola e promovem a descompressão adversária. Com lançamentos e rápidas triangulações facilmente a equipe consegue promover a transição ofensiva e chegar com perigo no gol adversário. Vejamos este exemplo na próxima imagem:

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Novamente mais um exemplo de como o City não é imbatível. O Liverpool praticando a saída sustentada e com os atacantes oferecendo a agudeza necessária na frente. Os zagueiros Citizens ficam presos na marcação e não compactam no setor de meio, nas costas do 1º volante (Fernandinho). Com um passe rápido para Oxlade-Chamberlain e este ocupa a zona em branco, então com grande espaço de movimentação para acionar seus atacantes, afinal ele está de frente para o campo de ataque e os jogadores do City são obrigados ainda a darem uma volta de 180° em torno de si mesmos para só então partirem em perseguição a Chamberlain. O ex-Gunner (ex-Arsenal) faz um passe em profundidade para Firmino (seta em vermelho) que tem muito espaço nas costas dos zagueiros para oferecer mais uma jogada de perigo para os Reds.

Bom, foi demonstrado alguns dos ótimos aspectos do time de Jürgen Klopp e também algumas de suas falhas. Assim como, nestes últimos exemplos, algumas brechas no esquema de Pep no Manchester City. Importante relembrar que na próxima temporada o Liverpool já terá o reforço certo do magnífico meio-campista Naby Keïta e talvez Alisson e Lucas Torreira. Somente alguns rumores que reservam um futuro glorioso para o torcedor de Anfield.

Liverpool está caminhando a passos largos para a reconquista da Europa. Se não ocorrer ainda nesta temporada, certamente nas próximas os vermelhos terão uma Champions League para comemorar

@P_Capitano10

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