HÁ 60 ANOS, O INÉDITO TÍTULO MUNDIAL E SUA REVOLUÇÃO

Por Ícaro Caldas

Depois de novo fracasso em 1954, começou a circular a tese de que, se a miscigenação do povo brasileiro criava futebolistas habilidosos, era também a causa de sua fraqueza psicológica, de sua incapacidade de lidar com as pressões inerentes às grandes competições. Mas aos poucos foi ficando claro que a explicação não estava na base do sistema, e sim no seu topo. Em 1955, a seleção jogou quatro vezes, com quatro treinadores diferentes (perceba que já está na nossa origem demitir treinadores). Em 1956, para a primeira excursão europeia da seleção, a CBD resgatou como técnico Flávio Costa, o derrotado de 1950, novamente dispensado após algumas partidas. O substituto, Oswaldo Brandão, foi demitido oito jogos depois, embora tenha classificado o Brasil para a copa de 1958. Naquele mesmo ano de 1957, a seleção ainda teria dois outros treinadores.

Era preciso um projeto mais abrangente e continuidade na sua aplicação, não experiências tateantes e ocasionais. O contexto nacional ajudava: o presidente democraticamente eleito, Juscelino Kubitschek, tinha um plano de metas para o país, a economia crescia 6% ao ano é uma nova capital brotava no centro do Brasil. Naquele momento, também no futebol existiam condições institucionais favoráveis ao planejamento. A CBD era dirigida por dois empresários, um carioca e um paulista: João Havelange na presidência e Paulo Machado de Carvalho na vice-presidência. Coube a este elaborar o plano para a participação brasileira na copa de 1958 na Suécia foi a seleção brasileira mais preparada da história do Brasil. Foram feitas 25 visitas a diferentes locais na Suécia para selecionar a sede de treinamento; uma vez escolhido o hotel, 25 funcionárias foram substituídas por homens para minimizar potenciais distrações. Os brasileiros tentaram até, sem sucesso, fechar um campo de nudismo que havia na área durante o período de treinos. E ele introduziu diversas novidades. Na comissão técnica, ao lado da presença de um preparador físico e médico, foram colocados também um dentista, um psicólogo e um espião (Ernesto Santos, ex-técnico do Fluminense), que tinha a missão de conseguir informações sobre os adversários. O relacionamento da chefia com o elenco tornou-se mais profissional e ao mesmo tempo mais caloroso: Nilton Santos (a enciclopédia do futebol) diria depois que Machado de Carvalho foi o primeiro dirigente a tratar jogador de futebol como gente.

Para treinador foi escolhido Vicente Feola, um homem mais de bastidores, embora com experiência de campo, pois tinha sido bicampeão paulista 1948-9 pelo São Paulo e auxiliar de Flávio Costa na copa de 1950. Discreto e pouco carismático, mas sabendo trabalhar em equipe, ele tinha perfil bem diferente de seus antecessores e acabaria sendo subavaliado por jornalistas e torcedores. Surgiria a lenda de que um grupo de jogadores insistiu na escalação de Pelé e Garrincha, mas foi Feola que, contrariando a opinião de dirigentes, insistiu em levar para a Suécia o menino santista mesmo contundido. Se aqueles dois jogadores não entraram nas primeiras partidas, foi simplesmente porque não estavam ainda em boas condições físicas. O capitão Bellini reconheceria depois que “Feola ganhou a copa de 1958 porque conseguia tudo dos jogadores dando-lhes Liberdade para discutir, criticar, sugerir”.

A opção tática de Feola também não foi suficientemente valorizada pela posterioridade. Há várias hipóteses sobre a adoção do 4-2-4 no Brasil, contudo em termos de seleção é inegável que o sistema passou do húngaro Béla Guttmann, que o utilizou com sucesso no São Paulo em 1957, para o homem forte do futebol no clube paulistano, Feola, que o implantou no ano seguinte na equipe nacional. Dentre os técnicos campeões a frente da seleção, ele teria o melhor aproveitamento: 90,91% em 1958-9, contra 80,95 de Zagallo em 1970-4, 74,47% de parreira em 1990-4 e 77,33% de Scolari em 2001-2. No total de suas passagens pela seleção, Feola obteve 81,31% de aproveitamento, diante dos 78,89% de Zagallo, 65,81 de Parreira e 74,69 de Scolari.

SELEÇÃO 1Imagem: livro “A Pirâmide Invertida”, Jonathan Wilson.

Graças à presença da melhor dupla de uma seleção na história Garrincha-Pelé e às goleadas nas duas últimas partidas (5 a 2 na França e Suécia), é costume dizer no Brasil que aquela seleção foi espetacularmente ofensiva. Mas antes de tudo ela foi um time equilibrado. Se marcou o dobro de gols em relação à copa anterior, jogou o dobro de partidas: portanto, a média de gols foi a mesma que na Suécia e na Suíça (2,66) é bem maior que na copa de 1950 (3,66).

 SELEÇÃO 2

Pelé e Garrincha, o início de uma história invicta na seleção.

A média de gols obtida pela seleção brasileira esteve bastante abaixo da média geral da copa de 1958(3,6). O fator decisivo residiu nos gols sofridos: de um por partida em 1950 e 1,66 em 1954, tal média caiu expressivamente para 0,66 em 1958. O Brasil protagonizou com a Inglaterra o primeiro 0a0 da história das copas. Não por acaso, a seleção de 1958 eleita por jornalistas das várias nacionalidades ali presentes foi constituída por uma defesa quase toda brasileira, com Gilmar, De Sordi, Bellini e Nilton Santos.

           SELEÇÃO 3

                                                                                                                                            

Bellini, o primeiro brasileiro e o início da tradição de erguer a taça da copa do mundo.

O balanço geral da copa da Suécia revela mudanças interessantes no mundo do futebol. O Brasil se redimiu das tentativas falhadas de 1938 e 1950; a Suécia (vice-campeã) e a França (terceiro lugar) subiram ao pódio pela primeira vez; novos convidados ocuparam postos honrosos (País de Gales na quinta colocação, união soviética na sexta, Irlanda do norte na sétima); outro novato em termos de copa entrou em cena( Escócia, 14 posição); e as antigas potências despencaram no ranking ( o Uruguai sequer passou pelas Eliminatórias, a Hungria terminou em 11° lugar, a Inglaterra em 12°, a Argentina em 13, a Áustria em 15°).

 

@caldas_icaro

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