TRÊS LIVROS PARA ENTENDER JORGE SAMPAOLI

Por Bruno Rodrigues (Futebol Café)

sampaoli 1Sampaoli assumiu em 2017 como técnico da Seleção Argentina (Crédito: Reuters)

A forma de jogar de uma equipe de futebol está intimamente ligada, na maioria dos casos, à personalidade de seu treinador. Quer um exemplo? A seleção chilena que foi treinada por Jorge Sampaoli, campeã da Copa América em 2015. Um é a definição do outro, “e vice-versa”, já diria o sábio. Ou já se viu um Chile tão atrevido e protagonista como esse dos últimos anos? Nunca. Esse atrevimento é parte de um processo e de uma filosofia posta em prática pelo argentino de 57 anos, hoje no Sevilla, tido como louco por alguns.

A questão, no caso de Sampaoli, é ousar defini-lo disso ou daquilo quando, na verdade, o conhecemos há mais ou menos seis anos apenas. Mais precisamente, desde que impressionou o futebol sul-americano no comando da Universidad de Chile em 2011, vencedora da Copa Sul-Americana. É muito pouco tempo para explicar, baseado somente na observação de seus times e nas poucas entrevistas exclusivas que concede, quem é o homem baixo e careca que vem impressionando o mundo do futebol nesta década.

Para chegar ao cerne da personalidade de Sampaoli e entender profundamente de que forma sua ideia de futebol está representada nas equipes que treina, o melhor caminho é a literatura. Há três livros que percorrem em detalhes a trajetória do argentino nascido na pequena Casilda até o comando da seleção chilena. Uma pena que as obras não estejam disponíveis em português e só possam ser adquiridas na sua forma física no exterior, mas vale a busca, para quem tem a oportunidade de viajar pela América do Sul, por um exemplar dos títulos a seguir.

LeonesLas historias de La U más exitosa de todos los tiempos
Rodrigo Fluxá e Gazi Jalil / Editora Aguilar, 2012

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Leones traz entrevistas de personagens do vitorioso 2011 de La U (Crédito: Reprodução)

Se a ideia é conhecer Sampaoli a fundo, por que começar justamente pelo ponto em que a maioria tomou conhecimento da existência do argentino, a Universidad de Chile? Porque o depoimento do treinador aos autores do livro, que conta com entrevistas de alguns dos personagens da avassaladora La U de 2011, diz muito sobre como Jorge Sampaoli encara o futebol.

Apesar do sucesso que alcançou com o clube chileno, levantando a inédita taça da Sul-Americana com as apresentações mais vistosas do continente, confessa que a trajetória desde seus inícios em Casilda até a grande conquista continental não valeu a pena — a carreira de treinador custou ao casildense um matrimônio, para citar uma das coisas que Sampaoli deixou para trás ao longo dos anos pela paixão ao futebol.

E apesar de o futebol ser algo que definitivamente é prioridade em sua vida, ele pouco desfruta do mesmo no dia a dia. A bola lhe dá prazer, mas o prazer termina no instante em que começa a pensar no próximo compromisso (um jogo ou mesmo um treino). E aqui, neste livro, ele fala com todas as letras sobre a admiração por Marcelo Bielsa: “Me lembro que saía para correr e levava no walkman gravações das coletivas de Bielsa e eu tratava de automatizar o que escutava. Estava o dia todo com a cabeça no Bielsa”, diz.

No escucho y sigoJorge Sampaoli, una vida futbolística
Pablo Paván / Editora Planeta, 2015

sampaoli 3Livro é um mergulho na sua intimidade pessoal e futebolística (Crédito: Reprodução)

A fraseNo escucho y sigoé parte de um verso da música Prohibido, da banda argentina de rock Callejeros. Sampaoli é tão fã do grupo que tatuou no braço o verso da canção e já chegou a visitar o vocalista do Callejeros, Pato Fontanet, na prisão — a banda foi declarada responsável por um incêndio em uma boate de Buenos Aires, em 2004. A breve descrição sobre o título do livro serve para ilustrar o tom mais pessoal e aprofundado da obra, uma biografia autorizada pelo treinador e escrita pelo jornalista Pablo Paván, nascido na mesma Casilda de Sampaoli.

Paván percorre toda a vida do técnico, desde sua infância na pequena cidade da província de Santa Fé, passando pelas equipes regionais nas quais jogou e treinou, os dramas pessoais e profissionais… No escuho y sigo é a leitura fundamental para mergulhar na intimidade de Sampaoli e saber como foi forjado seu caráter, além de conhecer mais sobre sua formação futebolística e a carreira antes do sucesso na Universidad de Chile.

De Bielsa a SampaoliEl desarrollo de la estrategia en el juego de La Roja
Rodrigo Astorga e Armando Silva / Editora Planeta, 2014

sampaoli 4Obra ajuda a entender o processo que levou o Chile ao topo (Crédito: Reprodução)

Ao olhar a capa, “De Bielsa a Sampaoli” pode parecer um livro recheado de campinhos, setas, círculos e imagens do mapa de calor da seleção chilena, elementos gráficos exageradamente utilizados hoje em dia e que juntos compõem a nova forma de analisar o futebol. Mas não, pelo contrário.

Com perfil de longa reportagem, explica ao leitor o processo que levou à saída de Marcelo Bielsa do Chile até a chegada de Jorge Sampaoli ao comando da Roja. A passagem de Bielsa por lá foi fundamental para a mudança de postura da seleção nos últimos anos, culminando, sob a batuta de Sampaoli, em uma ótima apresentação na Copa do Mundo do Brasil, em 2014 — o livro foi publicado antes da Copa América de 2015, mas é elucidativo no sentido de entender o sucesso da seleção no torneio continental.

Outro aspecto interessante é lembrar que, entre Bielsa e Sampaoli, o Chile passou pelas mãos de Claudio Borghi. O técnico, também argentino, assumiu o comando após a saída de “El Loco” e não conseguiu segurar o cargo até o Mundial do Brasil, abrindo espaço para o homem de Casilda. Casos de indisciplina e problemas no alto escalão da ANFP (Associação Nacional de Futebol Profissional) foram recorrentes não só no trajeto de Borghi, mas também do trio de hermanos que passou pela casamata da seleção. Depois de entender mais sobre a personalidade e a formação de Sampaoli, este livro fecha o ciclo do conhecimento detalhado a respeito desse homem que ganhou a admiração do mundo do futebol.

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