DO CÉU AO INFERNO: MOURINHO GANHA CLÁSSICO, MAS É ELIMIDADO EM CASA DIAS DEPOIS. POR QUE?

Por Nelson Coltro

De vitória no clássico contra o Liverpool a eliminação traumática, em pleno Old Trafford. Essa foi a semana de José Mourinho, que usando a mesma estratégia, apenas com adaptações, conseguiu resultados distintos em questão de dias. Aí vale o questionamento: até que ponto os resultados positivos podem segurar uma estratégia de jogo que, de forma resumida, só busca impedir o adversário de jogar?

Os resultados diferentes diante da mesma estratégia provam que, nem sempre, atuar da maneira mais conservadora é garantia de resultado. E quando ele não vem, as críticas recaem de maneira mais forte ainda, pois nada sobre depois da derrota, já que tudo que foi tentado, visava somente conseguir vencer o jogo “a qualquer custo”.

Confira a análise dos dois jogos e note onde o Sevilla foi melhor que o Liverpool para superar o Manchester United.

Liverpool

Mourinho optou pelo tradicional 4–2–3–1 com bola, com Rashford, Sánchez e Mata abastecendo Lukaku. Na fase defensiva, 4-4-1-1/4–4–2, com os dois pontas (Rashford e Mata) voltando para fechar e por vezes até no 6–3–1, com os extremos compondo nas laterais do campo como verdadeiros alas, deixando a frente apenas a dupla de volantes formada por Matic e McTominay, acompanhada de Alexis Sánchez. A curiosidade fica por conta do posicionamento do chileno, que foi escalado como meia central, para que a responsabilidade de recompor ficasse com Mata e Rashford. A ideia era clara: proteger sua área e tentar com bolas longas, ativar Lukaku na frente, para que o belga pudesse prender a bola e soltar para um dos homens de ataque.

UNITED 1Mourinho só cedeu espaço na intermediária para o Liverpool
UNITED 2Red Devils defenderam em variações de 4–4–2 e 4–4–1–1UNITED 3

Com as linhas recuadas no intuito de bloquear todos espaços próximos a sua área, o United acabou deixando pouco campo de ação para Mané e Salah, extremos do Liverpool que costumam, quase sempre, atacar a área ao invés de gerar jogo pelos lados. No time de Klopp, as extremidades do campo ofensivo são ocupadas por seus laterais, que jogam quase que fincados ali. Para ter sucesso nessa estratégia, Mourinho precisaria (e teve) de muita disciplina de Rashford e Mata.

No entanto, contra uma linha de 6 defensores, faltou espaço para o Liverpool jogar onde mais gosta, nas laterais e nas entrelinhas. Só havia espaço a frente das duas linhas de marcação do adversário, na intermediária, longe do gol. O que se viu foi uma boa atuação de Mané e Firmino, que buscaram sair da zona congestionada para criar algo. Por outro lado, Salah, que na prática, é o homem mais avançado do ataque dos Reds, completamente sumido do jogo, preso nas linhas de marcação do Manchester United. Na segunda etapa, quando o egípcio buscou sair de sua zona de conforto para colaborar na construção das jogadas, o camisa 11 esbarrou na grande atuação de Ashley Young.

UNITED 4Na segunda etapa, United protegeu ainda mais sua área com linha de seis

Outro que não encontrou espaço foi Chamberlain, homem capaz de desmontar um sistema parecido, uma semana antes, contra o Newcastle, em Anfield. O ex-jogador do Arsenal, usado por Klopp como meio-campista, não conseguiu suas tradicionais arrancadas, tampouco teve chances roubar bolas no campo adversário, já que o United não saía jogando pelo chão.

Em sua fase ofensiva, Mourinho mostrou inteligência ao apostar nas bolas longas para fugir da forte e eficiente marcação alta do Liverpool, que por exemplo, já havia surtido grande efeito contra o Manchester City, na única derrota do time de Guardiola na temporada da Premier League.

O treinador português também buscou explorar o problemático e inseguro lado direito da defesa do Liverpool e aproveitar a melhor característica ofensiva de sua equipe: Lukaku. O técnico português colocou seu centroavante, em ótima fase, para disputar a primeira bola com Lovren, instável defensor do Liverpool. Nos dois gols, camisa 9 puxa a marcação para o meio do campo, ganha do zagueiro croata e dá a famosa “casquinha”, deixando Rashford no 1×1 contra o ainda verde Alexander Trent-Arnold. O resultado foi uma bela definição do promissor atacante inglês.

gif 1Duelo aéreo vencido por Lukaku faz a diferença no lance do primeiro gol
gif 2Espaço gerado por Lovren novamente origina gol do United

Sevilla

Pela partida de ida das quartas de final da Liga dos Campeões, o Manchester United recebeu o Sevilla, também em Old Trafford, precisando de uma vitória simples para carimbar a vaga na próxima fase do torneio. A estratégia adotada por Mourinho foi basicamente a mesma do jogo contra o Liverpool, apenas com a diferença que Lingard foi escalado no lugar de Mata e Fellaini, na vaga de McTominay.

Escalado no 4–2–3–1, o United usou variações de 4–1–4–1, com Matic a frente da zaga e Fellaini mais a frente, fortalecendo ainda mais a disputa pelos duelos aéreos. Outra mudança em relação a vitória no clássico foi o posicionamento de Alexis Sánchez. O chileno foi deslocado para sua “zona de conforto”, que é a ponta esquerda do campo, enquanto Rashford foi para a direita e Lingard ficou pelo centro.

UNITED 5

Já o time espanhol, treinado por Vincenzo Montella, ex-Milan veio também no 4–1–4–1 com variação para o 4–4–2 na fase defensiva. A grande diferença em relação ao clássico do fim de semana passado, foi que o Sevilla — ao contrário do Liverpool — time ofensivo que atua com linhas altas, é mais conservador nesse sentido, e deixa as duas linhas de quatro bem compactadas, com pouco espaço entre elas, fazendo com que os meio-campistas atuem próximos aos defensores, o que cria superioridade na segunda bola

united 7Nesse contexto, as casquinhas de Lukaku e Fellaini não foram efetivas.

Time de Montella é mais organizado defensivamente do que o Liverpool de Klopp

Observando isso, Mourinho liberou seus laterais ao ataque depois do intervalo, mas novamente, a organização defensiva do time espanhol falou mais alto. A única chance criada pelo United veio através de Lingard.

Após sofrer o primeiro gol de Ben Yedder, a equipe que veio para reagir, não mostrou ferramentas ofensivas para quebrar o bloqueio do Sevilla. Logo veio o segundo, e na base do abafa, os Red Devils marcaram em cobrança de escanteio, mas é pouco.

A impressão que fica é que Mourinho limita o potencial de um bom elenco que tem em mãos, atrasando o desenvolvimento de ótimos jogadores jovens, como Martial, Rashford, Pogba e até comprometendo as atuações de Sánchez, que veio em janeiro para resolver, mas só marcou um gol.

@n_coltro

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