OS ESCANTEIOS COLORADOS –  Afinal, a bola aérea do Inter é mesmo forte?

Por Luiz Doering

O atacante avança com a bola pelo campo do adversário. Após driblar um oponente, ele desfere um poderoso chute em direção à goleira adversária. O chute acaba desviado e a bola sai pela linha de fundo. A torcida aplaude, fica de pé e se empolga: “temos um escanteio! O gol está próximo!”

O cenário citado acima é bastante comum. Ocorre diversas vezes ao longo de uma mesma partida. No imaginário do torcedor, o escanteio é um lance de muito perigo, afinal, temos uma bola parada a cerca de 30m da baliza do oponente e nossos jogadores mais altos estão indo para a área para tentar o cabeceio. De fato, parece ser uma bela oportunidade para marcar um gol.

Perguntei aos torcedores colorados, através de uma enquete realizada no meu Twitter (@lfmdoering), se achavam a bola parada ofensiva (especialmente os escanteios) do Inter forte. Para minha surpresa, o resultado foi um empate. Cada uma das opções recebeu exatos 78 votos. Metade das pessoas acredita que a bola parada ofensiva do Inter seja forte enquanto a outra metade acredita que essa mesma jogada não é forte. Fiquei curioso.

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Inspirado pela obra Os Números do Jogo, de David Sally e Chris Anderson, resolvi analisar os 92 escanteios cobrados pelo Inter no ano de 2018, desde a estreia no Campeonato Gaúcho contra o Veranópolis (19/01) até o Grenal válido pela última rodada da primeira fase do certame estadual (11/03). Foram analisadas ainda três partidas válidas pela Copa do Brasil dentro desse período.

Analisando os escanteios do Inter, descobri que apenas 33 dos 92 se tornaram oportunidades de gol, ou seja, levaram algum perigo à meta adversária. Isso significa que grande parte deles (64,13%) sequer se tornou uma chance de gol. Mas nem todas as oportunidades criadas viraram finalizações, já que em algumas oportunidades os jogadores colorados foram bloqueados ou a bola acabou sendo afastada pela defesa antes que o Inter pudesse finalizar. Se analisarmos as jogadas onde algum atleta colorado conseguiu finalizar, o número de lances aproveitados despenca para 21, ou seja, apenas 22,83% dos escanteios geraram finalizações contra o gol adversário.

Mas finalizações não vencem partidas. Para vencer os jogos, a regra exige que façamos gols. E aí temos o dado mais alarmante de toda a pesquisa: todos os escanteios cobrados pelo Inter em 2018 (92) resultaram em apenas 5 gols (5,43% de aproveitamento). Em que pese muitas equipes tenham um número ainda inferior nesse quesito, o número do Inter é pequeno para se chamar de “força aérea” como alguns o fazem.

Mas isso não é tudo. Abaixo temos um quadro informativo com os quatro principais batedores do Inter na temporada: D’Alessandro, Camilo, Nico López e Juan Alano. Percebam como o capitão colorado possui mais que o dobro de cobranças que o segundo colocado.

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D’Alessandro é responsável por mais de 40% dos escanteios colorados, seja lá qual for o lado da cobrança. E esse um ponto muito importante que eu quero abordar: o lado. É realmente incrível a diferença de aproveitamento do gringo a depender do lado em que realiza as cobranças. Das 12 oportunidades de gol geradas por escanteios de Andrés, 10 se originaram de escanteios batidos do lado esquerdo de ataque, resultando em um percentual de 40% de sucesso. Quando o camisa 10 bate os escanteios do lado oposto (lado direito do ataque) esse percentual cai para apenas 14,29%. O mesmo ocorre com as oportunidades que geram finalizações: São 6 (24% de sucesso) pelo lado esquerdo e apenas 1 (7,14%) pelo lado direito. Como não poderia deixar de ser, os únicos dois gols marcados através de escanteios batidos pelo craque argentino vieram de cobranças do lado esquerdo. Veja o resumo no quadro abaixo:

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Outro ponto que chama atenção é que Camilo, Nico López e Juan Alano (2º, 3º e 4º batedores) atualmente são reservas. Isso mostra que as cobranças de escanteio da equipe considerada titular estão totalmente concentradas em D’Alessandro, já que nenhum outro titular possui mais do que 5 cobranças na temporada. Isso é preocupante, especialmente considerando o baixo aproveitamento de D’Alessandro nas cobranças pelo lado direito do ataque. A minha sugestão à Odair Hellmann é que utilize outro jogador para os escanteios por aquele lado, e sugiro que o jogador a ser utilizado seja Edenílson.

Edenílson é o segundo titular com mais cobranças de escanteio no ano. Em que pese a amostragem seja pequena (apenas 5 cobranças), saliento que 4 delas foram feitas pelo lado direito e o aproveitamento é muito interessante: das 4 cobranças realizadas pela direita, 2 se tornaram oportunidades de gol. Melhor ainda, as duas oportunidades criadas resultaram em finalizações e uma delas gerou um gol. Na única cobrança de Edenílson pelo lado esquerdo do ataque, o Inter criou uma oportunidade que também foi finalizada, embora não tenha gerado um gol. O aproveitamento do incansável meia colorado é muito bom e poderia ser melhor explorado pela equipe, especialmente considerando o aproveitamento baixo que D’Alessandro tem cobrando por aquele lado. Abaixo, o quadro comparativo com os números do camisa 8:

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Uma pergunta que surge nesse momento é “E o escanteio curto? Funciona?”. Bem, dos 92 escanteios colorados em 2018, 6 foram do tipo “curto”. Eles geraram 2 oportunidades de gol (30%), mas nenhuma delas foi finalizada e consequentemente nenhum gol foi gerado através desse tipo de cobrança. A grande questão quando se fala no escanteio curto é ter em mente o que fazer com ele. Esse tipo de jogada deve ser feito com um objetivo pré-determinado, o que não ocorre hoje, já que ele é utilizado apenas como uma alternativa por questão de casualidade e das circunstâncias de momento.

E QUAL A SOLUÇÃO?

O Inter (e boa parte dos clubes brasileiros) precisa melhorar seu aproveitamento nesse tipo de jogada. O Colorado possui uma média de 7 escanteios por partida em 2018, mas com o atual aproveitamento, precisa de aproximadamente 18 escanteios para marcar um gol. Acredito que esse tipo de lance mereça uma atenção especial por parte da comissão técnica, talvez ensaiando alternativas (manter a posse, jogadas ensaiadas bem trabalhadas), afinal, é um lance importante, recorrente e que, da forma como vem sendo utilizado hoje, não vem dando resultados muito satisfatórios.

Fontes: para essa pesquisa, utilizei informações retiradas do livro Os Números do Jogo. Os vídeos utilizados para confeccionar o material e as informações estatísticas foram fornecidas pela InStat Scout.

@lfmdoering

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