SHAKHTAR E ROMA, UMA DECISÃO EM ABERTO

Por Diogo Rimoli

Uma das situações mais interessantes do futebol é observar o confronto tático de esquemas dentro de uma partida. Mas quando dois esquemas iguais se enfrentam, como devemos apontar os detalhes que fazem um se sobrepor ao outro? Teoricamente, em termos táticos, as forças de um confronto dessa natureza – com esquemas iguais – se equivalem. Mas um planejamento, invariavelmente, sempre prevalece e isso se deve muito à característica e qualidade dos jogadores e também pela execução do plano proposto.

Imperioso ressaltar que quando nos referimos a um sistema de jogo adotado por uma determinada equipe, estamos nos referindo ao sistema de base adotado, àquele que é o seu ponto de partida. Isso não impede que em algumas circunstâncias do jogo as equipes possam apresentar uma variação de seu esquema base, o que na prática ocorre com frequência.

Foi assim, num confronto de sistemas de jogos iguais, o 4-2-3-1, que SHAKHTAR e ROMA se enfrentaram no jogo de ida válido pelas OITAVAS DE FINAL da CHAMPIONS LEAGUE no dia 21 de fevereiro em Carcóvia, na Ucrânia.

É um esquema bastante utilizado atualmente e que foi executado com perfeição pela JUVENTUS de MASSIMILIANO ALLEGRI – que entendo como um dos grandes estrategistas da atualidade –, principalmente em vários momentos da temporada europeia passada. Evidentemente que a definição de um esquema deve ser feita baseada no plantel que um técnico tem em mãos. E o técnico italiano tinha um grupo que o permitia adotar esse esquema em grande parte da temporada 2016/2017, ainda que tenha utilizado também o 3-5-2 em tantas outras oportunidades.

Voltando à Ucrânia, podemos afirmar que a característica e qualidade dos jogadores do SHAKHTAR fizeram toda a diferença no duelo, o que possibilitou que a equipe ucraniana executasse com muito mais eficácia a sua proposta de jogo.

O 4-2-3-1 requer, por exemplo, uma capacidade de proposição de jogo dos dois homens que ficam à frente da linha dos quatro membros do sistema defensivo, ainda que um deles deva ter uma função mais defensiva em relação ao outro. Além disso, é necessário que esses dois jogadores reúnam ao mesmo tempo capacidade e senso de marcação e qualidade no passe. E nisso a dupla formada pelo brasileiro FRED e pelo ucraniano TEPANENKO foi muito superior em relação à dupla formada pelo italiano DE ROSSI e pelo holandês STROOTMAN. Enquanto FRED sistematicamente apareceu como opção quando da fase ofensiva do SHAKHTAR, nem DE ROSSI nem STROOTMAN apareceram como uma opção justa nesse quesito, o que por si só deu um volume de ataque maior aos ucranianos, principalmente no segundo tempo.

Outro ponto fundamental no sucesso do SHAKTHAR sobre a ROMA foi a participação decisiva de trio que se postou logo atrás do atacante argentino FACUNDO FERREYRA. O trio brasileiro composto por MARLOS, canhoto bem aberto pela direita, TAISON, mais centralizado, mas com liberdade de movimentação, e BERNARD, aberto pela esquerda, fizeram toda a diferença, pois aliaram competência tática para realizar a recomposição defensiva quando necessária e velocidade de execução em fase ofensiva. Talvez esse setor do 4-2-3-1 seja vital ao sucesso da ideia proposta numa partida. Ao compararmos esse setor da equipe do técnico português PAULO FONSECA com o mesmo setor da equipe do italiano EUSEBIO DI FRANCESCO, fica evidente que também muito da vitória de um esquema sobre o outro passou por ali. A ROMA não teve a mesma força e capacidade tática nesse setor e o argentino PEROTTI, o belga NAINGGOLAN e o turco CENGIZ ÜNDER, como conjunto voltado para a coletividade, ficaram bem abaixo do adversário e também o sucesso do esquema do SHAKHTAR foi em função dessa baixa produtividade italiana.

Cabe também ressaltar o apoio ofensivo do lateral brasileiro ISMAILY, que em jogadas de combinação pelo lado esquerdo de ataque incrementou ainda mais a produção ofensiva proposta pelos ucranianos. O lateral brasileiro foi constantemente uma peça importante, seja com suas jogadas de combinação ou com sua frequente presença na grande área adversária. O mesmo expediente não foi utilizado pela ROMA em função da quase inexistente capacidade de triangulações no setor, proporcionada principalmente por uma atuação destoante do lateral sérvio KOLAROV.

A partir disso, não fica tão difícil de entender como o 4-2-3-1 do SHAKHTAR se sobrepôs ao mesmo esquema utilizado pela ROMA. A vantagem dos ucranianos só será revertida, no jogo de volta, se a ROMA fizer uma partida de exceção em todos os sentidos, mas, principalmente, em âmbito tático, independente do esquema que vier a utilizar, pois o 4-2-3-1 do SHAKHTAR é muito bem executado e conta com peças que o fazem extremamente eficiente.

Agora as duas equipes se enfrentam pelo jogo de volta nessa terça-feira, 13 de março, em Roma. A equipe italiana vem de uma sequência de jogos – e de produtividade – muito interessante, tendo vencido com autoridade o NÁPOLI, fora de casa, com um volume de jogo sólido que fez com que a equipe de ESÉBIO DI FRANCESCO fosse propositiva. Vale ressaltar que o esquema utilizado pela ROMA diante do NÁPOLI foi o 4-3-3, ainda que tenha entrado em campo exatamente com a mesma equipe que perdeu para o SHAKHTAR na Ucrânia.

No entanto, o ponto de equilíbrio da ROMA não deve recair sobre o esquema utilizado e sim sobre o conceito de jogo da equipe romanista. Ou seja, para sair classificada do Estádio Olímpico, a ROMA deve fazer a partida perfeita, com ocupação dos espaços – principalmente sem a bola –, manter a equipe com movimentos curtos, subir a marcação e evitar que o SHAKHTAR possa propor o jogo, visto que a equipe do português PAULO FONSECA tem jogadores de grande capacidade nesse sentido. Também é necessário que peças como FLORENZI e KOLAROV, que tiveram atuações bem abaixo da média no jogo de ida, funcionem como apoio ofensivo quando em fase de posse de bola e tenha a capacidade defensiva de recomposição para evitar que o SHAKHTAR tenha sucesso pelo setor direito e esquerdo do seu ataque, expediente que se repetiu com frequência na Ucrânia.

Particularmente, entendo que a tarefa da ROMA será dificílima, pois enfrentará uma equipe que tem a vantagem do resultado de 2 a 1 no jogo de ida e é uma equipe muito rápida, bem estruturada taticamente, de boa qualidade técnica e que tem por característica ser propositiva e ofensiva. Talvez tudo isso seja realmente o prenúncio de um grande jogo, repleto de alternativas e que no plano tático fornecerá ótimos subsídios para análise.

Parafraseando o técnico italiano ARRIGO SACCHI, que afirma que “só no protagonismo se cresce”, avançará à próxima fase da CHAMPIONS LEAGUE quem efetivamente for protagonista no confronto de volta. Até aqui, sem dúvida alguma, quem fez isso foi o SHAKHTAR.

@diogorimoli

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