MESSI,  POR QUE O GÊNIO TEM SIDO POUCO DECISIVO NOS GRANDES JOGOS?

Por Juan Carlos e Rafael Lima

Antes de tudo é importante lembrar que Lionel Messi é um dos maiores (para alguns o maior) jogadores de futebol de todos os tempos. Decisivo em 4 Uefa Champions League, 5 vezes chuteira de ouro, 5 vezes bola de ouro/melhor jogador do mundo Fifa, entre outros tantos feitos…

Mas é inegável que nos últimos grandes jogos (principalmente da Uefa Champions League) o gênio tem tido dificuldade pra jogar. Veja não foi dito decidir, mas jogar, trabalhar a bola, triângular, infiltrar, driblar adversários em série, dar assistências, é só lembrar dos confrontos contra o Atlético de Madrid (em duas ocasiões) PSG e Juventus. E por que isso tem acontecido?

Antes de tudo é importante lembrar o posicionamento de Messi nos últimos anos, o craque argentino “flutua” nas costas dos zagueiros, trabalhando entre as linhas de defesa e meio campo do time adversário, pode se dizer que Messi tornou-se um gênio entrelinhas, e isso tudo graças ao seu grande mentor Pep Guardiola. No dia 1 de maio de 2009 na véspera do confronto contra o Real Madrid no Santiago Bernabeu pelo campeonato espanhol, Guardiola chamou Messi e mostrou à ele o espaço que havia entre as costas dos meio campistas madridistas (Gutti, Drenthe e Gago) que subiam pra fazer pressão nos portadores da bola (Xavi, Toure e Iniesta), porém os zagueiros (Metzelder e Canavarro) não subiam junto com o resto do time e sobrava um espaço gigantesco. Guardiola mostrou a Messi esse espaço e falou ao seu pupilo que inicia-se o jogo pela ponta direita como de costume, mas que se deslocasse para o centro afim de receber a bola nas costas dos volantes e partir pra cima dos zagueiros, que ficariam perdidos. Sem uma referência pra marcar não sabiam se subiam a marcação (o que facilitaria as infiltrações de Henry e Etoo) ou se esperavam o argentino partir de frente para eles com a bola dominada. O placar final foi um sonoro 6×2 para os catalães e o renascimento da figura do falso 9.

Outro exemplo foi a atuação magistral contra o Manchester United na final da Champions de 2011, o gol de Messi aliás é um bom exemplo, ele recebe a bola no espaço entre a defesa e os volantes parte pra cima dos zagueiros e finaliza com precisão para dar a vantagem no placar para o Barça naquela partida. A genialidade do argentino, aliada a um grande trabalho coletivo, ajudou o craque a faturar 5 bolas de ouro e 5 vezes o prêmio de melhor jogador do mundo. Messi reinou nesse espaço.

Mas os anos passaram e os adversários começaram a criar antídotos para preencher essa área dominada por Messi. Um dos antidotos foi compactar ainda mais as linhas espetando dois homens de velocidade nos lados do campo que fecham a segunda linha, mas que são os primeiros homens a serem acionados para ligar o contra ataque, com velocidade e transição rápida e poucos toques na bola, chegar a meta catalã e finalizar.

Outro exemplo é o Chelsea de Antonio Conte que sem a bola joga no 5-4-1, e quando recupera a bola se transmuta rapidamente no 3-4-3, nesse sistema as linhas ficam muito próximas, dificultam as infiltrações pelas extremidades do campo e impede que Lionel Messi trafegue entre as linhas dificultando o trabalho do craque por dentro. Messi fica em desvantagem númerica, sempre tem a sobra para marca-lo (Kanté e Fabregas por exemplo) e mesmo que consiga passar pelos marcadores a última linha esta colada nos meio campistas, e essa última é formada por 3 zagueiros e 2 homens de lado, fica praticamente impossível, jogar nesse espaço.

messi 1Messi com dificuldade de “flutuar” entrelinhas.

Ou mesmo o 4-1-4-1, nesse sistema o “1” entre as primeira e segundas linhas fica encarregado de proteger as costas dos meio campistas, o que também dificulta o trabalho do craque, um exemplo é a semifinal da Champions de 2010/2011 contra o Real Madrid no Bernabéu, Messi encontrava imensa dificuldades para jogar por que Pepe o zagueiro Luso-brasileiro era o 1 entre as linhas de marcação do Real, com a expulsão do atleta Messi fez 2 gols naquela partida a praticamente definiu o confronto no jogo de ida.

Exemplos não faltam, e você pode estar se perguntando: O craque não consegue mais jogar nos grandes confrontos ? É evidente que sim, nos jogos contra o Real Madrid no Santiago Bernabeu por La Liga nas temporadas 2013/14, 2016/17 e mais recentemente na temporada 2017/18. O Barça venceu os 3 jogos (3×4, 2×3 e 0x3 respectivamente) com 6 gols e 2 assistências de Leo, ou seja participou de forma decisiva de 80% dos gols.

Esse é apenas um exemplo, afinal Barça e Real são duas das maiores equipes do futebol mundial nos ultimos 10 anos, mas podemos citar os confrontos contra o Manchester City nas 4° de final da Champions de 2015 ou a semifinal contra o Bayer de Pep Guardiola na Champions da mesma temporada.

Mas repare em um padrão, os confrontos contra essas equipes são de times que gostam de jogar que posicionam sua última linha já no campo de ataque, e que gostam de pressionar o adversário na saída de bola, o que invariavelmente resulta em espaços nas costas dos volantes. Assim Messi consegue ficar no mano a mano contra algum meio campista (pobre Casemiro) ou partir em velocidade com a bola dominada pra cima de algum zagueiro (alguém também se lembrou de Jerome Boateng).

Mas focando novamente nos encontros contra os madridistas, se nos últimos anos Messi tem sido decisivo nos jogos realizados no Santiago Bernabéu, o mesmo nao tem acontecido nos jogos realizados no Camp Nou. Messi nao faz um gol com bola rolando desde a temporada 2014/2015 quando fez 2 gols naquela partida, de lá pra cá apenas 1 gol marcado de pênalti no jogo de ida na decisão da supercopa da Espanha pela temporada 2017/18, e mais do que a quantidade de gols que Messi possa ou não ter feito, o grande problema e que Messi não consegue jogar contra o Real no Camp Nou. Isso ocorre por que o Real Madrid defende mais o espaço do que o controle do jogo (defender a bola), claro que nao é nada comparado aos tempos de José Mourinho, mas é uma estrutura de jogo mais precavida, fazendo pressão na saída de bola catalã apenas em alguns momentos (principalmente nos momentos iniciais de cada tempo), recuando as linhas e espremendo Messi entre elas.

Esse exemplo de marcação pode ser verificado nas partidas da Champions de ida no Parc des Princes (PSG) e na Allianz Arena (Juventus). Nos jogos de volta no Camp Nou as duas equipes defendiam apenas o espaço, pensando apenas na transição rápida quando recuperassem a bola. Os resultados final todos sabem, a classificação épica contra o PSG e a eliminação catatônica contra a Juventus, nesses jogos o argentino ficou apagado, achatado, quase escondido entre as linhas adversárias. O mesmo padrão pode ser verificado nas 2 eliminações contra o Atlético de Madrid nas edições de 2013/14 e 2015/16 da Champions League.

messi 2Messi (círculo amarelo) perde a bola que resulta no gol de Draxler, jogo de ida, Champions League 14/02/2017

Uma “solução” seria Messi abandonar essa área e se infiltrar não mais entre as linhas, mas entre os zagueiros adversários, jogando como um verdadeiro 9.

Mas aí surgem dois novos problemas:

Primeiro Messi não tem estatura ou porte físico para brigar entre os zagueiros adversários, e segundo a falta de mobilidade de Leo. Jogar como um ponta poderia ser uma alternativa, mas que também trariam mais problemas do que soluções, como por exemplo a falta de velocidade (Messi tem uma grande explosão quando parte pra cima do adversário com a bola dominada, mas jogar pelas pontas exigiria do atacante velocidade sem a bola pra recebe-la nas costas dos laterais), a distância que Leo ficaria do gol, e o fato de ter que fazer a recomposição pelo lado do campo. Sabe quem fez essa “transição” muito bem ? Cristiano Ronaldo.

O português nunca foi um articulador de jogadas ou um jogador de rara habilidade, o forte do português sempre foram a transição rápida, o porte e força física e o poder letal de finalização. O craque português saiu da esquerda e participa cada vez menos do jogo (pra não dizer que não participa do jogo), assim o trabalho dele é “apenas” o de decidir as partidas. Com essa nova característica o atacante se beneficia de um sistema de jogo muito sólido em que o craque vai empilhando gols no em La Liga no torneio continental e prêmios individuais.

messi 3C.Ronaldo entre os zagueiros, decidindo mais uma partida- Real x Bayern Champions League (18/04/2017)

Mas e Lionel? Esta fadado ao ver o português ultrapassa-lo em número de prêmios de melhor jogador do planeta? Será que seus técnicos ajudaram o gênio a desempenhar melhor seu jogo?

Vejamos, quando Luís Henrique era o treinador da equipe, ele cedeu a tentação de ver seu tridente mortal brilhar ao extremo, assim a bola pouco circulava por dentro, o jogo de apoio e aproximação foi praticamente esquecido, dando lugar a um jogo de bolas longas, jogo vertical e o incessante 1 contra 1 de Neymar. Nesse “sistema” Messi em muitas ocasiões era espectador e finalizador, afinal Neymar destruía várias defesas com seus dribles geniais e sobrava espaço para Leo jogar. Mas o que era solução em jogos de La Liga, não era nos grandes confrontos da Champions. Neymar é inquieto, não se entrega, luta até o fim, por isso o jogador brasileiro teve mais brilho do que Leo nos confrontos contra Atlético de Madrid, PSG e Juventus, fez 3 gols e deu uma assistência enquanto Leo marcou apenas 1 gol.

Nesse cenário de desconforto Messi se “entrega”, sucumbe entre as linhas, passa a tocar a bola de lado e fica estático, talvez tentando ler uma brecha na defesa adversária um espaço pra atacar e decidir.

Messi é um gênio, mas o futebol é um esporte coletivo, não se pode esperar que ele resolva todas as partidas sozinho. Podemos pegar a partida contra o Chelsea ocorrida no último dia 20/02/2018 pelas 8° de final da Uefa Champions League. O Barcelona parecia um time de pebolim, estático, anestesiado sem poder de fogo frente as trincheiras bem montadas da esquadra azul.

Ernesto Valverde montou o Barça no seu já tradicional 4-4-1-1, com os 4 homens de defesa, os 4 de meio campo e liberdade total para Messi e Súarez. Mas é exatamente nesse esquema que começam os problemas do time, os homens de lado da segunda linha, são Iniesta e Paulinho, jogadores que não buscam as extremidades do campo, trabalham por dentro. Iniesta sempre fez isso, tem habilidade e visão de jogo pra trabalhar por ali, mas Paulinho não tem essa mesma qualidade. O forte dele sempre foi roubar a bola, e passa la o mais rápido possível, para se infiltrar na área adversária. Paulinho tem visão para encontrar os espaços deixados pelos adversários, força e mobilidade para brigar com os zagueiros. O que aconteceu apenas uma vez no Stamford Bridge em uma cabeçada que passou próximo a meta defendida dos Blues.

Se você não tem amplitude com os homens de meio campo, então a solução é liberar os laterais para eles darem amplitude ao time e abrir a defesa adversária, aí temos outro problema, apenas Alba joga buscando as costas da última linha, Sergi Roberto é mais posicional joga quase sempre posicionado na linha da bola. O mundo todo sabe que quando Messi sai do centro para a direita o craque procura Jordi Alba no lado oposto, mas no confronto contra o Chelsea, Victor Moses esteve ligado o tempo todo. Quando Messi tinha a “opção” Neymar essa bola não precisava ser nas costas entre o lateral e o zagueiro, por que Neymar no 1 contra 1 poderia levar vantagem contra o marcador, coisa que Alba não é capaz de fazer.

No confronto de ida Messi não conseguiu jogar, mas foi decisivo, marcou o gol que dá uma pequena vantagem a sua equipe.

Messi não é pipoqueiro, não se esconde nos grandes jogos, mas a questão não passa apenas pela dificuldade cada vez maior de jogar entre as linhas, mas sim dos seus técnicos de encontrarem soluções pro maior jogador do planeta brilhar. Valverde se encontra em uma encruzilhada, quando pensou na equipe imaginava que Dembelé poderia ser o homem do 1 contra 1 nas extremidades do campo mas o jovem atleta francês lesionou se no inicio da temporada e ainda não retomou a melhor forma física e técnica, testou várias vezes Delefoueu que não correspondeu (já foi até negociado). Imaginou que na lateral direita Nelson Semedo poderia dar a amplitude que Alba traz na esquerda, mas o jovem português ainda peca muito no aspecto defensivo. Valverde não tem a confiança em nenhum dos dois, não esta descartando os atletas, apenas não vai apostar neles nesse momento da temporada (apenas como opção pro segundo tempo).

André Gomes no lugar de Paulinho? Não acredito, o atleta tem grande rejeição da torcida e verdade seja dita, não rendeu nas inumeras oportunidades que teve. Paco Alcacer? Talvez, mas o atacante poderia “travar” um pouco a liberdade de Messi e Suarez.

Valverde é inteligente, sabe que precisa movimentar melhor suas peças para criar espaços para Lionel brilhar, não pode cair no mesmo erro de Luiz Henrique que imaginou que apenas a qualidade fenomenal de seu trio de ataque poderia resolver todos os seus problemas. Mas Valverde pode ajudar Leo a sobressair nos grandes confrontos ou essa é uma responsabilidade atribuída apenas a Messi. Não acredito nisso, um exemplo?

Imaginando o Barça com a mesma formação do jogo de ida contra o Chelsea, Messi poderia sair mais vezes do centro e cair pela direita, quando o argentino fizer esse movimento Paulinho sai da direita e infiltra na área como centroavante, Suarez faria a diagonal entrando na área, e tanto Alba quanto Sérgio Roberto abririam as extremidades do campo atacando os flancos buscando as costas entre os zagueiros e homens de lado, com esse movimento sincronizado Iniesta sai da esquerda e vem pra dentro junto com Raktic. Dessa forma o Barça teria dois homens dentro da área, dois homens nas extremidades para abrir a defesa adversária e dois homens na entrada da área para brigar pelo rebote ou até mesmo pressionar o adversário, cortando o contra ataque na raíz. Esse tipo de movimentação nao é fácil, mas ajudaria Messi a trabalhar com mais opções de passe. E assim com tanta gente afundando a equipe londrina dentro da sua própria área sobraria espaço pra Messi jogar por dentro, por que ainda teriam três opções de passe curto para triângular (Busquets, Iniesta e Raktic). Outro ponto importante é nessas pouco mais de duas semanas que antecedem o jogo de volta contra o Chelsea, dar mais minutos para Dembelé, o atleta precisa de confiança pra poder render em uma eventual dificuldade no jogo de volta.

A grande questão é: Messi terá que se reinventar sozinho? Ou terá o auxilio do seu treinador e companheiros pra brilhar e levar a equipe culé a mais um título de Champions League.

@10juancarlitos e @rafjoga101983

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