O DRAMA DOS GOLEIROS DA INGLATERRA ÀS VÉSPERAS DA COPA DO MUNDO

Por Bruno Bezerra

gol 1Falha de Robert Green na Copa do Mundo de 2010. (Foto: goalkeepertalk.com)

Ser goleiro no futebol é aceitar uma vida completamente diferente em relação aos demais jogadores dentro da modalidade. Treinamento específico, equipamento diferenciado e o mais importante: ser preparado para viver altos e baixos em relação as suas atuações. Um atacante pode perder sete gols e marcar nos acréscimos, que todos se lembrarão desse momento, agora, se um goleiro, por mais que tenha feito defesas milagrosas durante todo jogo cometer uma falha que comprometa o resultado do jogo, sua reputação vai por água abaixo.

Na Inglaterra, que não conquista uma Copa do Mundo desde 1966, falhas constantes de seus goleiros em torneios internacionais tornaram-se frequentes e às vésperas da Copa do Mundo da Rússia, o English Team vive um drama: não há um candidato ideal para assumir o gol.

De David James à Joe Hart: Insegurança e irregularidade

David Seaman, que se aposentou do gol inglês em 2002, famoso por ter sofrido um belo gol de falta de Ronaldinho Gaúcho nas quartas de final do mundial (onde até hoje se questiona se ele falhou ou não ao se adiantar tanto), foi provavelmente o último goleiro “confiável” da Inglaterra nos últimos anos. Após Seaman, o primeiro candidato foi seu então reserva imediato, David James, que assumiu o posto na Eurocopa em 2004.

James, apelidado de Calamity James, por conta de sua irregularidade, nunca foi um goleiro confiável, tanto na seleção como em clubes e logo foi substituído por Paul Robinson, na época titular da meta do Tottenham Hotspurs. Robinson começou vivendo um bom momento, sendo o número um na Copa do Mundo de 2006 e não convenceu. Nas eliminatórias da Euro 2008, foi colocado novamente no banco de reservas por conta de suas falhas, dando vaga a Scott Carson, considerado o grande culpado após falhar diante da Croácia, deixando a equipe fora de uma Eurocopa após 24 anos.

Para a Copa de 2010, a opção de Fabio Capello foi de por como titular Robert Green, titular do West Ham e que não era unanimidade entre os torcedores. Em sua primeira partida no mundial, diante dos Estados Unidos, uma falha grotesca no gol de Clint Dempsey fez com que Capello voltasse à coloca-lo no banco de reservas, cedendo a vaga para David James.

gol 2Joe Hart falha diante da Islândia, pela Eurocopa 2016. (Foto:standard.co.uk)

Após Green, foi a vez de Joe Hart, titular da Inglaterra nos dois últimos torneios internacionais disputados. Apesar da regularidade no Manchester City, suas atuações pela seleção nacional tiveram altos e baixos, sendo provavelmente o ponto mais baixo, suas atuações abaixo da média na Eurocopa em 2016, com falhas diante do País de Gales e principalmente na partida de oitavas de final contra a Islândia, na qual a equipe islandesa conseguiu uma vitória histórica por 2 a 1. Associado a tudo isso, empréstimos para Torino e West Ham, nesse último, onde vive um período de ostracismo na reserva do espanhol Adrian San Miguel.

Forster e Heaton: Problemas na temporada inviabilizam confiança

Seria a chance dos então reservas de Hart, Fraser Forster do Southampton e Tom Heaton do Burnley, de lutarem pela titularidade eram imensas, porém, os mesmos não tiveram sucesso. O primeiro vive uma temporada ruim em um time que vem lutando contra o rebaixamento, tanto que foi colocado no banco de reservas por Mauricio Pellegrino, optando pelo também inglês Alex McCarthy, com passagens em campos de treinamento com o English Team.

gol 3Temporada ruim para Forster e Heaton inviabiliza confiança para o Mundial (Foto: chesterchronicle.co.uk)

Heaton por sua vez, sofreu uma grave lesão no ombro e perdeu boa parte da temporada. Um dos goleiros mais regulares da Inglaterra, a ausência de ritmo de jogo, associada ao ótimo momento do seu substituto, Nick Pope, outro que também aparece entre a lista de possíveis candidatos ao gol inglês no mundial, podem dificultar o sonho do ex-arqueiro do Manchester United em disputar sua primeira Copa do Mundo.

Pickford e Butland: Opções ‘confiáveis’?

Dois jovens goleiros podem ser opções interessantes para a Inglaterra no Mundial. Jordan Pickford, do Everton e Jack Butland, do Stoke City.

Pickford é tido como uma das gratas revelações da última temporada com a camisa do rebaixado Sunderland e que fora comprado pelos Toffes por cerca de £25m. Com uma temporada irregular do Everton, o ex-Sunderland tem vivido um bom momento com a camisa da equipe de Liverpool, que ainda luta por vaga na próxima Uefa Europa League. Com a camisa da seleção nacional, fez sua estreia na equipe principal no amistoso diante da Alemanha, onde foi bastante elogiado após boa atuação. Apesar de mostrar qualidade, falta ao mesmo ter experiência internacional em um grande torneio.

gol 4

Figura Butland e Pickford são apostas que já mostraram qualidade, porém, inexperientes a nível internacional. (Foto: NurPhoto/Getty Images)

Butland vive um momento irregular no Stoke City, que luta contra o rebaixamento a EFL Championship. Convocado como terceira opção para a Eurocopa em 2012, para substituir o lesionado John Ruddy, Butland foi titular da seleção da Grã Bretanha nas Olimpíadas de 2012, em Londres, além de ter uma reputação construída nas seleções de base. Outro fator que pesa em sua desconfiança são as frequentes lesões, que atrapalharam bastante seu progresso nos últimos anos.

Reflexo na Premier League: Apenas cinco dos 20 times da liga, tem goleiros ingleses

Com o aumento do poderio financeiro da Premier League, os principais jogadores do mundo passaram a ter muito interesse em disputar a competição. Com os goleiros, não é diferente e muitos dos principais nomes da modalidade, atuam na liga, como o espanhol David de Gea, o belga Thibaut Courtois, o francês Hugo Lloris e o brasileiro Éderson Moraes.

Apenas cinco equipes possuem goleiros ingleses como titulares. Mesmo com o sucesso recente da Inglaterra nas categorias de base, sobretudo com os títulos nos mundiais sub-17 e sub-20 em 2017, é evidente que há uma falha na preparação, desenvolvimento e inserção desses atletas ao se integrarem a elencos profissionais, sendo emprestados inúmeras vezes a equipes menores buscando mais oportunidade de jogo, até serem vendidos ou saírem de seus clubes a custo zero.

GOLEIROS TITULARES DE CLUBES DA PREMIER LEAGUE
Clube Nome Nacionalidade
Arsenal Petr Cech Republica Tcheca
Bournemouth Asmir Begovic Bósnia Herzegovina
Brighton and Hove Albion Mat Ryan Austrália
Burnley Nick Pope Inglaterra
Chelsea Thibaut Courtois Bélgica
Crystal Palace Wayne Hennessey Pais de Gales
Everton Jordan Pickford Inglaterra
Huddersfield Town Jonas Lössl Dinamarca
Leicester City Kasper Schmeichel Dinamarca
Liverpool Loris Karius Alemanha
Manchester City Éderson Moraes Brasil
Manchester United David de Gea Espanha
Newcastle United Martin Dúbravka Eslováquia
Southampton Alex McCarthy Inglaterra
Stoke City Jack Butland Inglaterra
Swansea City Lukas Fabianski Polônia
Tottenham Hotspurs Hugo Lloris França
Watford Heurelho Gomes Brasil
West Bromwich Albion Ben Foster Inglaterra
West Ham United Adrian San Miguel Espanha

Em comparação com a La Liga, o número de goleiros não espanhóis em clubes da elite é reduzido quase pela metade. Enquanto em solo inglês, 15 não ingleses são titulares de seus clubes, apenas oito equipes, ou seja, 40% das equipes tem em seus times goleiros titulares que não nasceram em solo espanhol.

GOLEIROS TITULARES DE CLUBES DA LA LIGA
Clube Nome Nacionalidade
Alavés Fernando Pacheco Espanha
Athletic Bilbao Kepa Arrizabalaga Espanha
Atlético Madrid Jan Oblak Eslovênia
Barcelona Marc Andre Ter Stegen Alemanha
Celta Vigo Rubén Blanco Espanha
Deportivo La Coruña Rubén Martínez Espanha
Eibar Marko Dmitrovic Sérvia
Espanyol Pau López Espanha
Getafe Vicente Guaita Espanha
Girona Yassine Bounou Marrocos
Las Palmas Leandro Chichizola Argentina
Leganés Ivan Cuellar Espanha
Levante Raul Fernandez Espanha
Málaga Roberto Espanha
Real Betis Antonio Adán Espanha
Real Madrid Keylor Navas Costa Rica
Real Sociedad Geronimo Rulli Argentina
Sevilla Sergio Rico Espanha
Valencia Neto Brasil
Villarreal Sergio Asenjo Espanha

E afinal, quem será o camisa 1?

O questionamento mais pertinente após essa análise se refere a quem Gareth Southgate depositará a confiança no Mundial. Levando em conta experiência internacional, Joe Hart deverá ser o titular apesar do momento ruim. Vale lembrar que Sergio Romero, goleiro da Argentina, viveu momento parecido em 2014, quando era banco do croata Subasic no Monaco e fez ótimo mundial com a equipe vice-campeã daquela edição, sendo peça chave nas semifinais diante da Holanda e que Hart poderá dar a “volta por cima” na Copa.

Em termos de qualidade, Pickford é um arqueiro proativo. Bom com os pés, ágil, porém ainda oscila emocionalmente cometendo erros infantis em saídas de bola aérea ou na tomada de decisão. Butland tem características semelhantes, mas leva vantagem no aspecto emocional e deixa a desejar com a bola nos pés e na hora de propor o melhor passe.

Uma verdadeira dor de cabeça. O panorama para a escolha de um camisa 1 não é nada animador para Southgate, que precisará focar especificamente para a definição de um jogador que poderá ser peça chave na Copa do Mundo, seja positivamente ou negativamente.

@brunobez_

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s