A APATIA E O SISTEMA DO ARSENAL 17/18

Por João Victor Cardoso (Panda)

arsenal 1Getty images

O time do Arsenal, nos últimos jogos, vem apresentando uma instabilidade muito grande, mas que já é resultado de alguns anos de marasmo de Arsène Wenger a frente do time do norte de Londres e concebeu um efeito dominó. E, recentemente esse efeito chegou ao seu ápice. A exemplo de um 5×1 contra o Everton e, alguns jogos depois, apresentar um futebol pífio em dois duelos contra o Manchester City e, consequentemente, duas derrotas de 3×0 para os citizens. O Arsenal não consegue apresentar um jogo fluido e perigoso de tempos atrás, como na época de Fàbregas, Bergkamp, Henry e Van Persie, que era temido por toda Europa. Hoje em dia qualquer equipe um pouco organizada consegue bater de frente com os Gunners. Wenger parece ter entrado em um estado de inércia no mundo do futebol. Praticando um futebol arcaico, baseado em um tiki-taka involutivo, o time se demora em trocas de passes desnecessárias na linha de meio e dependente de um dia inspirado dos seus destaques, seja Özil, Lacazette, Auba ou Mkhitaryan.

Faz parte da personalidade do líder buscar permanentemente novos desafios. Pois a falta de liderança é o que pode provocar a inércia de pessoas, organizações e povos e, na ausência de mudanças, sucumbir.” (Carlos Roberto Sabbi)

Arsène parece ter perdido o controle do vestiário. Jogadores desmotivados, perdidos em campo, sem um sistema definido e preguiçosos para praticar as atividades básicas de atletas profissionais. Inclusive há jogadores que estão se voltando contra o comandante francês no vestiário. Realmente é um time fadado ao insucesso e Wenger parece não ter percebido que seu tempo em Londres acabou.

E, infelizmente, todas estas infelicidades estão estourando, justamente, após a chegada de dois nomes de primeira linha do futebol mundial: Henrikh Mkhitaryan e Pierre-Emerick Aubameyang. Mais um motivo de críticas ao senhor Arsène Wenger. Com um elenco recheado de nomes de alto nível, o Arsenal se limita a disputa de vagas na UEFA Europa League. Para a próxima temporada é necessária mudança e, inclusive, já foram ventilados nomes como Maurizio Sarri (treinador do Napoli) e Leonardo Jardim (treinador do Monaco). A troca é primordial para o Arsenal voltar a ser o gigante que sempre foi.

O segredo da mudança é concentrar toda a sua energia, não na luta contra o velho, mas na construção do novo.” (Sócrates, filósofo grego)

Metodologia e tática

arsenal 2

No início da temporada o vimos utilizando o 3-4-3. Com a saída de Alexis Sánchez, e chegada dos já citados “Auba” e Mkhirtaryan, foi convencionada a mudança para o clássico 4-2-3-1. Na parte ofensiva vemos Özil participando das construções após cair da extrema direita para o meio. Aubameyang atua como referência na frente podendo variar as funções de centroavante fixo ou falso 9, o atacante gabonês ainda pode ser testado como ponta esquerda para que seja concretizada a formação de um “Quarteto Fantástico” (Özil, Mkhirtaryan, Aubameyang e Lacazette). E por fim temos “Laca” e Henrikh, normalmente utilizados por dentro (O armênio já atuou como meia esquerdo também, cumprindo função semelhante à Mesut do lado oposto, como ponta-construtor, ou seja, o meia aberto que cai por dentro e auxilia nas criações por dentro).

Também há os jogadores de meio como Xhaka, Ramsey e Wilshere que, aliás, são uns dos poucos nomes que ainda conseguem praticar um futebol de alto nível, e salvam-se, desta anarquia desconstrutiva criada por Wenger. Além deles, incluo também na meiuca dos Gunners, Héctor Bellerín e Nacho Monreal. Os dois laterais espanhóis talvez sejam as peças que vem atuando em mais alto nível na equipe. Fornecem amplitude nas construções ofensivas, atacam com ferocidade e velocidade as linhas adversárias (ação que Monreal evoluiu muito nesta temporada, pois se caracterizava por ser um lateral mais básico e defensivo), fecham os espaços de passe na defesa e oferecem recomposição, que outros jogadores nas posições de frente parecem ignorar.

A seguir um quadro das estatísticas dos Gunners na Premier League e destaque para os laterais.

arsenal 3 Quadro do canto inferior direito: percentual das zonas de ação com bola da equipe. (Own Third=Próprio campo, Middle Third=Meio campo, Opposition third=Campo do adversário)

O quadro do canto inferior direito, certamente, é a comprovação do Tiki-Taka sem verticalidade. 44% do tempo dos jogos a equipe passa com a bola na zona central do campo, entre toques laterais e sem profundidade. Para criação de alguma jogada perigosa é necessária, justamente, a participação dos laterais ou então a utilização de um passe longo para os meias de criação tentarem elaborar uma jogada ofensiva, somente pelo talento próprio. Pois não há indícios de treinamentos voltados e especializados para jogadas ofensivas associativas e/ou de aproximação. Os atacantes do Arsenal se submetem a marcação do adversário, seja jogando contra West Brom ou Manchester City, não há nenhum vislumbre de instrução ofensiva e, principalmente, velocidade nas transições.

arsenal 4

Na imagem podemos ver exatamente este problema do jogo do time de Emirates. Iwobi, ao receber a bola, está isolado e não possuí opções de passe próximo. Só resta ao jovem nigeriano recuar a bola, pois os atacantes, ao invés de propor um jogo de maior aproximação, se enterram na defesa adversária e permanecem nessa posição até a bola ser recuada. Mais uma vez retornamos a nosso quadro e vemos que, em média, o Arsenal possui 58,4% por jogo. Está explicada tamanha posse em um campeonato tão vigoroso e veloz. Passes laterais e sem progressão são a chave para o jogo tão abominado pelos treinadores posicionais e propositivos de hoje em dia que fazem sucesso, e Wenger está indo para o caminho oposto. Pode-se ver também a descompressão do time na zona adversária. Sempre há um grande espaço entre os zagueiros e volantes na etapa ofensiva, o que deixa o time extremamente sujeito a contra-ataques a partir das zonas centrais e costas dos zagueiros. Mesmo não sendo um time que sofra muitos gols, diretos, de contra-ataque (somente 8% dos gols sofridos na Premier League são fruto imediato de counter atack), é uma equipa que sofre das jogadas decorrentes destes contra-ataques velozes pois, justamente, sofre da descompactação na etapa ofensiva, e demorada recomposição por parte dos meias. Özil, por exemplo, embora seja o principal produtor das jogadas de frente, como mostrado no quadro anteriormente, demora na recomposição pelo lado direito e sobrecarrega o lateral Héctor Bellerín. Essa forma desagrupada de se defender origina ótimos ataques aos adversários, como mostrado na próxima montagem.

arsenal 5

Contra o Tottenham foi bem comum ver este problema originado de um ataque posicional do time de Pochettino. Os extremas (meias abertos-em vermelho) do Arsenal não participam da recomposição e permitem um bom ataque dos Spurs. Enquanto há a concentração de passes e jogadores do lado direito de defesa do Arsenal, o meia direito do Tottenham (marcado em roxo) tem liberdade para avançar sem nenhum tipo de marcação. Em uma virada rápida de jogo ele está livre para avançar e cooperar na construção de ofensiva. E o time não sofre apenas da descompressão ofensiva, mas também da defensiva. É comum vermos o Arsenal tentar propor duas linhas de 4, porém sempre descompactas e com espaços. Inclusive está tão desorganizada a defesa que nem as zonas de cobertura são feitas e podemos ver várias rupturas de linha e espaços em branco na defesa dos Gunners. Shkodran Mustafi nem lembra o zagueiro seguro de tempos de Valencia em que cobria vários espaços da defesa e da lateral. O zagueiro alemão sofre com todos os sintomas do conjunto e se mostra inseguro em vários lances, principalmente pela falta de cobertura. O mesmo ocorre com Koscielny. O líder do grupo é, sem dúvida, um dos jogadores que mais sofrem com a má fase do time e, por poucas vezes, acaba pecando em alguns aspectos, especialmente pela mesma sensação de Mustafi na falta de compactação e cobertura entre as linhas. É como se o sistema defensivo do Arsenal não relacionasse com o meio e ataque.

arsenal 6

Aqui um exemplo clássico do prejudicado trabalho defensivo dos Gunners. Após o City quebrar a linha de meio com facilidade, Agüero recebe a bola e tem espaço em branco a sua frente. Mustafi é obrigado a sair de posição para combater Kun na linha de volantes e não recebe cobertura por parte dos volantes ou do quarto zagueiro. Na posição de Shkodran fica um espaço livre de marcação e é justamente a posição que Leroy Sané ataca (linha amarela) com liberdade. Após a jogada individual de Sané, Bernardo Silva (círculo roxo) aparece livre, pois houve a deformação da linha defensiva, e ao receber a bola de Sané, já dentro da área, executa um bom chute e abre o placar.

Novamente é importante ressaltar que não só de tristezas se sustenta o futebol do Arsenal. Monreal e Bellerín fazem, talvez, a melhor temporada de suas carreiras e, embora seja um time desorganizado e um tanto “atrasado” para os padrões atuais, está indo para a disputa da UEFA Europa League contra o Milan com a faca nos dentes, pois sabe que é o único título disponível para tentar disputar e que para Wenger não saia pelas portas dos fundos do time que se tornou sua vida.

Estatísticas: Whoscored

@P_Capitano10

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