O TAL DE MARACANAZO

Por Ícaro Caldas

Data: 16 de Julho de 1950

O que estava em jogo: o título da Copa do Mundo de 1950

Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Juiz: George Reader (ING)

Público: 173.850 (oficial) e mais de 200.000 (estimado)

“Maracanazo”

A festa já estava pronta. Cartazes de “campeões do mundo” eram vistos por toda parte e nas capas dos jornais. Políticos já tinham os discursos prontos. Uma nação inteira esperava apenas o apito final do inglês George Reader para soltar o grito de alegria no maior estádio do mundo, o Maracanã, construído especialmente para aquela Copa do Mundo de 1950. Mas os milhões de brasileiros se esqueceram de avisar os rivais uruguaios, campeões do mundo em 1930 e invictos em jogos de Copa. Os jogadores do Brasil não contavam com a fibra e a raça celestes. E, acima de tudo, não jogaram futebol, não se prepararam adequadamente e entraram já derrotados em campo. O resultado não poderia ser outro: Brasil 1×2 Uruguai. Mais de 200 mil pessoas no Maracanã ficaram emudecidas. E choraram. Muito. Foi o maior choro coletivo da história do futebol. Lenços que tremulavam antes da partida agora enxugavam as lágrimas que escorriam pelo rosto. Estava feita a tragédia. E sacramentada a maior derrota da história do futebol brasileiro, bem como a maior vitória da história dos uruguaios. Jamais o esporte no Brasil foi o mesmo depois daquele 16 de julho de 1950. Ele mudou, felizmente, para melhor. Mas aquela ferida, aberta e escancarada por apenas 11 homens, jamais se fechou. É hora de relembrar.

O desempenho do Brasil no mundial de 1950 foi fundamental para fazer crescer o excesso de entusiasmo na torcida. Foram quatro vitórias (4 a 0 no México, 2 a 0 na Iugoslávia, 7 a 1 na Suécia e 6 a 1 na Espanha) e apenas um empate (2 a 2 contra a Suíça) antes da partida decisiva contra o Uruguai. Um empate bastava para a seleção naquele último jogo do quadrangular final. Já os uruguaios precisavam da vitória se quisessem ficar com o título mundial pela segunda vez.

Antes do jogo decisivo, o clima de “já ganhou” e a festa da torcida foram explícitos no país. Todos tinham a certeza de que o Brasil sairia do Maracanã, com a taça de campeão do mundo. Os jornais do dia do jogo davam até mesmo cartões postais da “Seleção Brasileira – Campeã Mundial”. Essa atmosfera toda de festa culminou com uma desastrosa preparação dos atletas brasileiros, que saíram da concentração para o turbulento estádio de São Januário. Lá, mal puderam almoçar direito nem ao menos descansar, indo ao Maracanã logo em seguida e ficando concentrados por horas dentro do vestiário, naquela tensão pré-jogo terrível e sobre-humana. Do lado uruguaio, o oba-oba foi utilizado como arma para mexer com os brios dos jogadores. No vestiário, o grande personagem daquele mundial, o capitão Obdulio Varela, mostrou toda sua autoridade ao ir contra a ideia do treinador Juan Lopez de jogar na defensiva. Diante de um adversário rápido e letal no ataque com Ademir, Zizinho e Jair, Varela rechaçou que era preciso jogar com inteligência, muita marcação na principal jogada brasileira – a troca de passes no meio de campo – e não cometer erros no ataque. Já no túnel, o Negro Jefe deixou curtas palavras:

“Não pensem nessa gente, não olhem para cima”

E eles não olharam…

Primeiro tempo e o Brasil terminara campeão do mundo.

Na entrada dos times em campo, alguns maus presságios começaram a aparecer. A bandeira brasileira estava de ponta-cabeça e assim mesmo foi hasteada. Na hora de os capitães escolherem os lados do campo, o Brasil perdeu na moedinha pela primeira vez naquela Copa e teve de jogar do lado oposto ao que estava acostumado. Além disso, era visível a tensão nos jogadores brasileiros e um leve relaxamento nos uruguaios (com exceção de Julio Perez, que sofreu uma incontinência urinária e se aliviou ali mesmo, no campo…), muito bem comandados pelo capitão Obdulio Varela. O barulho e a frenesi da torcida eram enormes, afinal, mais de 200 mil torcedores estavam no Maracanã (10% de toda a população do Rio de Janeiro à época). O público oficial foi de pouco mais de 170 mil torcedores, mas como as catracas foram liberadas, acredita-se que mais de 200 mil pessoas entraram no estádio.

O Maracanã lotado, em 1950, e ainda com barras de sustentação: megalomania e símbolo de uma tragédia.

O jogo começou e o Brasil foi quem deu os primeiros chutes e as primeiras chegadas ao ataque, mas sem grandes sustos. Ao longo do primeiro tempo, a seleção deu 17 chutes a gol, contra apenas cinco do Uruguai, que estava frio como gelo e sem sentir a pressão. Uma mostra disso foi o número de faltas: cinco do Uruguai contra 12 do Brasil.
A Celeste conseguia anular a jogada do meio de campo do Brasil. Zizinho, Ademir e Jair não conseguiam cumprir seus papéis e os uruguaios ganhavam sobrevida. Pelas pontas, Gambetta e Matias González anulavam Friaça e Chico. Esse “ferrolho” perdurou ao longo de todo o primeiro tempo e parecia intransponível. A torcida nem ligava, afinal, o empate dava o título para o Brasil, que terminava a etapa inicial como campeão do mundo.

Os times na final: a velocidade do ataque brasileiro sucumbiu diante dos frios e “raçudos” uruguaios. Na zaga brasileira, são visíveis os buracos, principalmente pelo lado direito, que ficou totalmente livre para Julio Perez e Ghiggia fazerem a festa.

Segundo tempo – a consolidação da tragédia

Com apenas dois minutos de jogo, o Brasil fez explodir o Maracanã com um gol. Ademir recebeu de Zizinho e tocou na medida para Friaça, pela direita, chutar rasteiro, sem chance para Máspoli: 1 a 0. O barulho foi ensurdecedor e a alegria geral. Aquele resultado dava o caneco ao Brasil. Mas, naquele gol, começaria o pesadelo brasileiro. O capitão Varela, como forma de ganhar tempo e assustar a torcida, deixou o jogo mais de um minuto parado pedindo impedimento no lance. Depois do gol, ao invés de liquidar o adversário, o Brasil diminuiu o ritmo e só foi dar mais um chute a gol aos 11 minutos.

Schiaffino marca o primeiro do Uruguai: início do drama.

Com isso, o Uruguai cresceu e passou a usar sua jogada mais perigosa: os lançamentos pela direita, explorando a velocidade de Ghiggia. A Celeste chegou ao empate aos 21´, quando Varela passou para Ghiggia na intermediária, perto da lateral. O ponta escapou de Bigode, correu, correu e tocou rasteiro para Schiaffino, que chutou alto, sem chances para Barbosa. A torcida emudeceu, mas continuou a incentivar a seleção. No entanto, aquele gol mostrou ao time Celeste o caminho para a consagração: o lado direito.

Ghiggia correu, correu e conseguiu ser o “primeiro homem a calar o Maracanã”. Depois dele, só Frank Sinatra e o Papa…

Aos 34 minutos da segunda etapa, Julio Perez passou pela marcação brasileira e tocou para Ghiggia, sempre pela direita. Ele devolveu ao companheiro e partiu em velocidade, para receber nas costas de seu marcador, Bigode. O goleiro brasileiro Barbosa pressentiu que a jogada do primeiro gol poderia se repetir e se afastou da trave esquerda. Livre de marcação, pois Juvenal estava indo em direção a Schiaffino, Ghiggia correu e, ao invés de cruzar como no primeiro gol, chutou forte, rasteiro, exatamente no canto que Barbosa havia deixado: Uruguai 2×1 Brasil. Silêncio no Maracanã. Faltando apenas 11 minutos para o fim do jogo, o time Celeste conseguia o que muitos acreditavam ser impossível. O Brasil não teve forças para empatar e, aos 45´, o juiz inglês George Reader cumpriu a pontualidade britânica e apitou o final do jogo, sem esperar a conclusão de um lance de perigo a favor do Brasil. Era o fim. O Uruguai, 20 anos depois, conquistava a Copa do Mundo, se igualava à Itália e era bicampeão mundial. O Brasil, favorito, com o melhor ataque da competição e jogando em casa, ficava com o vice.

O Maracanã, que já estava silenciado, virava um poço de choro, lágrimas e tristeza.

Os uruguaios não acreditavam no que viam e se sentiam até mesmo sem jeito pela tragédia que haviam acabado de protagonizar. O presidente da FIFA, Jules Rimet, que tinha preparado até um discurso próprio para o Brasil, nem cerimônia fez ao entregar a taça para Varela de tão perplexo que ficou. Estava sacramentado o Maracanazo, como ficou conhecida a maior derrota da história do futebol brasileiro. E, sem dúvida alguma, a maior vitória da história do futebol uruguaio, eterna e que até hoje não foi vingada pelos brasileiros. Ghiggia, Schiaffino e Varela viravam, de vez, monstros sagrados do esporte uruguaio e mundial.

Dezenas de rojões foram esquecidos no estádio. Churrascos programados por amigos e familiares de jogadores jamais foram saboreados e curtidos. Ruas inteiras decoradas viraram corredores que celebravam o vazio, o nada. Naquele 16 de julho, nenhum brasileiro podia sorrir ou contar piada. Era dia de chorar. De rever conceitos. De lamentar.

Pós-jogo: o que aconteceu depois?

Brasil:

Por mais dolorida que tenha sido a derrota na final da Copa de 1950, ela foi muito boa para o futebol brasileiro. Após aquele desastre, ganhou vida a identidade “Brasil, o país do futebol”, a ponto de o uniforme ser mudado para sempre para a atual camisa amarela com detalhes em verde, calções azuis e meias brancas. Com o inconfundível uniforme, a seleção levantou duas Copas seguidas em 1958 e 1962.

Em 1970, 20 anos depois do Maracanazo, quis o destino que Brasil e Uruguai se reencontrassem novamente em mais uma Copa, dessa vez na semifinal. Só que naquele dia, no México, foi o Brasil que mostrou fibra, talento e garra para virar um 0 a 1 para 3 a 1 e encaminhar o caminho do tricampeonato que lhe deu a posse definitiva da Taça Jules Rimet, a mesma “tomada à força” pelos uruguaios no dia 16 de julho de 1950, mas que dorme até hoje (a réplica, mas dorme!) no Rio de Janeiro sob o leito da eternidade.

Uruguai:

Causar tanto sofrimento a uma nação trouxe sérias consequências ao futebol do Uruguai. Nunca mais a equipe voltou a vencer uma Copa e só teve bons momentos no mundial de 1954 e em 1970, quando caiu na semifinal em ambas as edições para Hungria e Brasil, respectivamente. Em 2010, 60 anos depois do Maracanazo, eis que a Celeste ressurgiu e alcançou uma incrível semifinal, mas foi derrotada pela Holanda.

Em 2011, o time conquistou a Copa América e voltou a sonhar com um bom desempenho na próxima Copa, em 2014, no… Brasil! Novo Maracanazo à vista? Não. Nas oitavas de final, a Colômbia de James Rodríguez fez 2 a 0 e mandou a Celeste para casa justamente no Maracanã, que recebeu o Uruguai em uma Copa depois de 64 anos e foi intolerável com o que o time havia feito em 1950. Não teve virada. Não teve jogada decisiva pela direita. E não teve um golzinho sequer da Celeste, que terá que buscar o tricampeonato em outro estádio. No Maracanã? Nunca mais! Para rechear ainda mais a lenda, Ghiggia, o carrasco, faleceu exatamente no dia 16 de julho de 2015, 65 anos após ele marcar o gol mais importante de sua carreira. O futebol e seu misticismo…

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