ENTRE O PASSE E O DRIBLE: UMA REFLEXÃO SOBRE O PROCESSO FORMATIVO DO FUTEBOL

Por André Andrade

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Nos últimos dias a minha TL e grupos de Whatsapp foram inundados com compartilhamentos desse tweet e debates sobre o tema, não me cabe nesse artigo julgar o quão absurda é a frase, se o autor utilizou do exagero para tentar mostrar um ponto de vista , qual sua intenção ou coisas do tipo, respeito a opinião de Arnaldo e os convido simplesmente a minha reflexão sobre o tema, despertada entre outros fatores por esses tweets.

O futebol

Sabemos que o nosso amado esporte, futebol, é um esporte muito complexo e envolve diversos fatores, técnicos, táticos, psicológicos, cognitivos entre outros. Desse modo a aprendizagem e desenvolvimento das habilidades em um esporte por parte das crianças(o foco desse artigo)não é uma tarefa tão simples.

Aprendizagem motora, o que é?

Mudança interna no domínio motor do indivíduo, deduzida de uma melhoria relativamente permanente em seu desempenho, como resultado da prática.(MAGGIL, 1984).

As capacidades motoras fundamentais se caracterizam basicamente em: locomoção, manipulação e estabilidade. O período de 0 a 7 anos é muito importante para o estímulo lúdico nas brincadeiras , desenvolvimento de repertório motor e estímulo dessas capacidades motoras fundamentais.

Dos 7 aos 10 anos geralmente as crianças já tem contato com o esporte e algumas características das crianças nessa fase são:

  • Curiosidade
  • Interesse por TV, Video-games e afins
  • Boa imaginação e criatividade
  • Períodos curtos de atenção, mas que aumentam gradualmente
  • Autocentrada
  • Nesse período se inicia a melhor percepção de detalhes, profundidade entre outros aspectos.
  • São necessárias vivências para o desenvolvimento percepto-motor.

O desenvolvimento percepto-motor se caracteriza pela capacidade do indivíduo de conseguir ter a percepção, interpretação rápida e adequada do estímulo e a realização da resposta motora eficiente. Ou seja: em termos gerais para o futebol: pensar rápido a melhor decisão de acordo com os estímulos e agir eficientemente no contexto(seja passar, driblar, chutar, dar um carrinho). Em um jogo de futebol o processo seria mais ou menos esse: Um goleiro avista um atacante preparando o chute, ou seja, ele recebeu o estímulo, e agora está realizando assimilação e interpretação do mesmo, para posteriormente escolher a resposta motora(movimento: um salto em direção a bola), após a escolha o goleiro realiza a ação motora e de acordo com o resultado dela( conseguiu defender? ou não? como foi essa defesa?) há um feedback(resposta) interno(a avaliação do próprio goleiro da situação) e pode haver também externo( do treinador) e esse ciclo continua sempre voltando ao começo e se soma as experiências também acumuladas pelo jogador no treino, em outros jogos… Fica um exemplo prático abaixo com o treino do Diego Alves em velocidades absurdas de um goleiro de elite: estímulo, assimilação, interpretação, resposta motora , feedback.

Estágios de habilidades na aprendizagem motora

(Modelo dos Três Estágios de Fitts e Posner):

  • 1) Estágio cognitivo
  • 2) Estágio Associativo
  • 3)Estágio Autônomo
  • Exemplo da auto-escola: A maioria das pessoas já tirou ou vai tirar ainda a famosa “carta de motorista”… No caso da direção na prática, as primeiras explicações e primeiras aulas do aluno no carro seriam o estado cognitivo, envolve muito planejamento das possíveis estratégias para realizar os movimentos, uso grande da atenção e também são comuns vários erros nessa parte onde o aluno está começando a assimilar a tarefa. Depois de algumas aulas(por exemplo, 5 ou 10 aulas) , entendimento e prática da estratégia mais eficiente, o aluno já começa a apresentar as habilidades para direção mais refinadas, e nesse processo o foco está no aprimoramento de determinado padrão ou habilidade e isso caracteriza o estágio associativo. O terceiro e último estágio, o autônomo, se manifesta por um domínio excelente da habilidade e uma taxa de atenção reduzida para a execução da tarefa, exemplo: depois de 1 ano dirigindo, o condutor já consegue prestar atenção ao ambiente, conversar com o passageiro ao lado, enquanto realiza as tarefas necessárias para conduzir o veículo(passar marcha, embreagem, controlar o volante, olhar os retrovisores…). Essas fases estão presentes em na aquisição das habilidades e no futebol não é diferente, o aluno passa por elas…

Fica claro com essa parte do texto que o fenômeno aprendizagem(que se refere a mudança no cérebro e não é diretamente observável, só conseguimos observar a performance: ou seja o resultado bruto das ações) é complexo e envolve muitos fatores além desses citados e a decisão de uma criança ou de um jogador numa partida de futebol não ocorre do nada.

A cultura brasileira e o futebol de rua

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Entendo o drible e o passe como dois fundamentos básicos do jogo e fundamentais , e o futebol como um ambiente de habilidades abertas, imprevisíveis, onde cada situação e contexto dura milésimos de segundos,e requer diferentes soluções(técnicas , táticas…) e o grande estímulo ao futebol de rua no país nas décadas anteriores sempre foi um dos grandes responsáveis pela criatividade dos jogadores e o perfil de jogador brasileiro, um ambiente divertido, de brincadeiras lúdicas, competitividade, onde o jogo mesmo apresenta as perguntas/situações e o jogador(criança, adolescente) responde a essas perguntas de maneira autônoma, gerando senso crítico e entendimento do jogo, de uma forma um pouco mais intuitiva.

Quem não se lembra das inúmeras tardes da infância na rua, jogando bola, gols de chinelo, arrancar o tampão do dedo… Com a atual conjuntura social e a impossibilidade das crianças brincarem nas ruas, o videogame se torna geralmente a ferramenta mais útil e possível para as crianças tentarem extravasar a criatividade, curiosidade em relação ao jogo, o que não é suficiente.

Nunca me ensinaram caneta e chapéu na escolinha de futebol e categorias de base (devo ter treinado por uns 16 anos, hoje só jogo pelada), isso aprendi na rua,na experiência, vendo Ronaldinho, Ronaldo, Zidane, Messi , Neymar… Os dribles são ações que podem muitas vezes ser complexas e podem necessitar de jogadores acima da média para serem realizados e talvez por esse motivo, se observe muito mais os dribles errados do que os certos, ou os passes errados….

Os grandes craques e as habilidades

Os grandes craques do futebol, Messi, Cristiano Ronaldo, Iniesta,Busquets, Ozil… emfim, formem a lista que quiserem. Dominam os mais variados aspectos do jogo, o que permitem a eles solucionar uma maior variedade de situações dentro do jogo, e o drible faz parte do jogo, é sempre importante assim como o passe e deve ser sempre estimulado e valorizado de acordo com a situação do jogo, o drible pode ser útil ao zagueiro, ao meia, ao atacante, e não só ao ponta até mesmo para desenvolvimento da criatividade do jogador(nos times de Guardiola por exemplo,o treinador catalão vê como fundamental a capacidade do jogador de driblar, porque o drible é importantíssimo em situações de 1×1, situações para criar superioridade posicional , numérica, para romper linhas , desajustar esquemas de marcação e coberturas…). A grande sacada é RESOLVER os problemas que o jogo propõe da maneira mais eficiente e rápida. Os grandes craques são reverenciados pelos colegas, pela mídia e pela sociedade justamente por isso, são considerados diferentes e acima da média , realizando jogadas criativas onde muitas vezes o espectador não consegue ver saída.

  • Saída de jogo sensacional do Leverkusen, mas porque tantos passes trocados em seguidas? Belos perfilamentos dos jogadores, angulação e posição essencial que permitiu o prosseguimento da jogada de forma rápida e inteligente, boa tomada de decisão dos jogadores( aproximações, formação de linhas de passe, gestos técnicos excelentes)…O passe como ferramenta de desequilíbrio e ofensividade.

“É necessário talento para gerir o talento”

Essa frase foi dita pelo Prof. Júlio Garganta em uma palestra em 2017 onde tive o prazer de ouvir e ela ecoa na minha mente até hoje. Se faz necessária uma boa formação dos treinadores e profissionais de Educação Física no país, com senso crítico, para que possam cuidar e estimular as crianças na maneira certa de acordo com as individualidades da modalidade, do indivíduo, suas possibilidades e contextos onde estão inseridos, para formação de jogadores, atletas e sobretudo pessoas com entendimento do jogo de seus aspectos, com alto nível cognitivo e técnico, capazes de resolver os problemas que o jogo entrega. Outra frase marcante dita pelo português foi: “O talento não se caça, se pesca”. Ou seja, não adianta caçar o talento, o ponto principal é criar o AMBIENTE PROPÍCIO para que o talento se mostre e se desenvolva e os jogadores não tão talentosos também aprendam e se desenvolvam como atletas e seres humanos, porque a decisão é deles, o jogo é dos jogadores, não é o comentarista ou o treinador que toma decisão, são os jogadores. E com relação a sociedade, comentaristas, jornalistas e treinadores , precisamos PENSAR O JOGO e estudá-lo mais a fundo URGENTEMENTE.

O drible é desequilíbrio, o passe é desequilíbrio, o futebol é um caos ordenado, uma ode aos jogadores pensantes, ousadia , liberdade! Deixem os meninos jogarem!

@pepgenius

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2 comentários sobre “ENTRE O PASSE E O DRIBLE: UMA REFLEXÃO SOBRE O PROCESSO FORMATIVO DO FUTEBOL

  1. Discordo profundamente do comentário que gerou esse excelente artigo. Ao contrário do que ele propõe, as escolinhas tem, com raras exceções, contribuido para a diminuição gradativa do repertório dos jogadores, sobretudo brasileiros. A ausência dos campinhos (tínhamos ao menos um por bairro há 25 ou 30 anos) e de segurança, tem privado nossas crianças de um aprendizado que é particular desse ambiente. Que inclui inclusive a convivência de jovens de várias idades e níveis de desenvolvimento no Esporte.
    O futebol segue se tornando cada vez mais profissional, é verdade. Mas aonde isso vai nos conduzir é que é o problema.
    Parabéns pela matéria!

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