CORINTHIANS v PALMEIRAS – #impressões

Rodriguinho (39′), Clayson (83′)

Parte Um

1. Este jogo começou na segunda-feira e, como acontece nos clássicos, ainda não terminou. Pensemos.

2. Contra o Red Bull Brasil, o Corinthians deixou claros alguns dos seus problemas ofensivos. Falamos extensamente sobre eles aqui. Era claro que, para o derby, era preciso encontrar mecanismos diferentes, que fizessem com que não apenas fosse possível conservar a posse da bola, mas também – e especialmente – progredir ao gol com qualidade.

3. Para isso, me parece que Fabio Carille escolheu uma estratégia simplesmente brilhante. Quando anunciou que jogaria sem um nove tradicional, Carille deu um recado que talvez não tenha sido muito bem interpretado: era claro que Romero não jogaria por dentro, pois não há no elenco quem faça o corredor melhor do que ele, especialmente no momento defensivo. A dúvida era se Rodriguinho e Jadson jogariam alinhados ou não. Esta foi a decisão que me parece ter decidido o jogo.

4. Como assinalei no texto de segunda-feira, o Corinthians teve sérios problemas para progredir ao gol contra o Red Bull porque, dentre outros motivos, Rodriguinho esteve sobrecarregado como único meia central daquele 1-4-2-3-1. Era comum, inclusive, que ele buscasse repetidamente o corredor esquerdo, para combinar com Clayson, o que atenuava um desequilíbrio ofensivo que, naquele jogo, já fora latente. Quando Carille decide jogar com Rodriguinho e Jadson móveis, ele simplesmente potencializa a capacidade de progressão da equipe, porque agora há um apoio a mais e porque, repare bem, há uma clara vantagem numérica no setor de Felipe Melo, que esteve nitidamente sobrecarregado defensivamente – especialmente no primeiro tempo. Muito embora Tchê Tchê e Lucas Lima estivessem claramente preocupados com os movimentos de Rodriguinho e Jadson às suas costas, o Corinthians encontrou diversas oportunidades de progressão a partir do corredor central.

5. Enquanto o Corinthians tinha 2 v 1 no setor de Felipe Melo, o Palmeiras estava em 2 v 2 no setor de Gabriel e Renê Júnior. Além de conseguir superioridade numérica na intermediária ofensiva, as escolhas de Carille possibilitaram igualdade numérica na corredor defensivo central, o que trouxe enormes benefícios – não apenas táticos. Mentalmente, o equilíbrio defensivo do Corinthians foi bastante deletério ao Palmeiras, que se viu em uma situação rara na temporada, a circulação de bola estéril, os extremos incapazes de interiorizar em boas condições, além de um bom controle da profundidade na primeira linha defensiva corintiana, impedindo que Felipe Melo encontrasse boas opções, repetidamente, às costas da primeira linha.

6. Deixo em negrito o termo acima porque Felipe Melo foi simplesmente brilhante para quebrar as linhas adversárias através de passes verticais. Veja bem, embora tivesse Rodriguinho e Jadson por dentro, o Corinthians não escolheu pressionar Felipe, especificamente. O que houve – e aqui temos uma diferença clara nas estratégias das duas equipes – foram quinze ou vinte minutos de pressing corintiano, adiantando em vários metros as linhas, o que basicamente definiu o andamento do primeiro tempo, porque assim o Corinthians forçou o Palmeiras a abrir mão da bola. Ou melhor, o Corinthians reinvindicou a posse. Talvez essa tenha sido a grande vitória de Carille hoje, porque além de uma questão tática, me parece que o resultado do clássico tem uma origem moral. O Corinthians decidiu ter a bola. O Palmeiras, não.

7. O que me surpreende, não apenas pelas demonstrações que já tivemos do Palmeiras (aqui e aqui), mas porque não é esta mentalidade, mais reativa, que se espera deste Palmeiras, especialmente em um derby. Notadamente no primeiro tempo, o Palmeiras marcou em bloco médio/baixo, talvez imaginando que o Corinthians não conseguisse progredir com qualidade. O problema é que, para além dos supracitados movimentos de Rodriguinho e Jadson, o posicionamento de Clayson e Romero também foi diferente, em vários momentos mais interno, criando apoios fundamentais em momento ofensivo. Acrescente ainda a entrada de Maycon como lateral (que antecipamos na terça-feira), que não apenas trouxe níveis elevados de segurança para a posição, mas permitiu que houvesse mais um apoio interior, de um meia de origem, que interpreta inteligentemente o espaço aberto e inflitra em diagonal, permitindo uma superioridade admirável, que resulta no primeiro gol. Um golaço.

8. Enquanto escrevo este texto, concordo com o colega Gabriel Dudziak, que faz uma ressalva logo após a entrevista coletiva de Fabio Carille. O Corinthians não jogou em um 1-4-2-4. Na verdade, esta definição não me parece precisa. O zero ali implícito foi o que fez toda a diferença.

Retrato do lance do gol: Maycon inflitra em diagonal para, mais tarde, combinar com Rodriguinho. Repare o quão baixo está o bloco defensivo do Palmeiras. Esta foi uma tendência no primeiro tempo – essencial para entendermos o que houve neste jogo.

Parte Dois

1. No intervalo, respondendo à reporter Lívia Laranjeira sobre a posse da bola até então, Dudu disse: ‘a gente tocou também’. Tocou, mas muito menos. Segundo o Footstats, ao fim do primeiro tempo, o Corinthians somava 269 passes trocados, contra 185 do Palmeiras (diferença que se manteve ao término da partida). Como dissemos acima, esta diferença e as outras se explicam não apenas pela estratégia proativa do Corinthians, como pela reatividade palmeirense. As ações do Palmeiras, em alguma medida, estiveram atrasadas, eram sempre a posteriori, dependentes do outro lado do campo. Me parece sarcástico que o Palmeiras tenha começado atrás por vontade, e terminado atrás por necessidade.

2. Apesar disso, achei notável a melhora após a mudança de Roger Machado, lançando mão de um 1-4-2-3-1, ou seja: Lucas Lima uma linha acima. Até a marcação do pênalti, o Palmeiras me pareceu ter encontrado um equilíbrio muito interessante, uma vez que cessou a inferioridade numérica no corredor defensivo central (Rodriguinho e Jadson), ao mesmo tempo em que houve um apoio mais recorrente para Felipe Melo no início da construção. O lance que termina no impedimento de Miguel Borja, após belíssimo passe de Lucas Lima, parece um bom exemplo da melhora palmeirense, em um ataque todo construída por dentro, com qualidade, ludibriando duas das linhas defensivas do Corinthians. Que me parecia propositalmente reativo, mas não marcando no bloco quase baixo que o Palmeiras adotara no primeiro tempo.

3. Na entrevista coletiva após o jogo, ouço Roger Machado dizendo alguma coisa sobre os zagueiros na construção. De fato, é algo que me chamou a atenção nos dois últimos jogos a que assisti – e também hoje: Antônio Carlos e Thiago Martins podem evoluir no comportamento com bola em jogos como este, em que a progressão é dificultada. Veja bem, durante todo o jogo houve uma situação de 3 v 2 no início da construção (contando com Felipe Melo), mas que não me pareceu suficientemente aproveitada. Os dois zagueiros estiveram muito voltados para a circulação da posse, o passe pelo passe, o que poderia ter outro efeito se, ao invés, fosse melhor explorada a condução, atraindo a marcação adversária e, assim, criando os desequilíbrios que potencialmente resultariam em melhor sorte para o Palmeiras.

4. Me parece que a entrada de Gustavo Scarpa na vaga de Willian não trouxe benefícios tão claros – logicamente descontando as consequências da expulsão de Jaílson. Fiquei com a impressão de que o Palmeiras poderia ter se beneficiado mais se Borja fosse substituído. Veja bem, ao contrário de outros jogos, Borja não esteve tão disponível como um apoio recorrente – o que também considerei importante para entender os problemas ofensivos do Palmeiras. No intervalo, imaginei que a melhor resposta pudesse ser, exatamente, uma similar àquela adotada por Carille: abdicar da referência. Ali, o Palmeiras poderia forçar situações de 3 v 2, fosse através de um atacante mais móvel (como o próprio Willian), fosse dando mais profundidade aos laterais, que me pareceram muito tímidos, forçando os entremos para o corredor central.

5. A profundidade dos laterais – isso vale para qualquer equipe – é essencial para compreender porque algumas equipes conseguem ser tão dominantes no futebol moderno. Joga os extremos para dentro, criando apoios importantíssimos. Empurra os extremos adversários para o próprio campo. Dá metros aos zagueiros no início da construção. Um bom exemplo do que significa ter laterais em profundidade, como ressaltamos aqui, é o Tottenham de Mauricio Pocchetino.

6. A expulsão de Jaílson foi, logicamente, o ponto de inflexão do jogo. Dali em diante, me pareceu que o Corinthians apenas reforçou o controle que já tivera no primeiro tempo. O segundo gol, em pênalti sofrido por Rodriguinho e convertido por Clayson, clareou um outro problema importante do Palmeiras: os espaços dentro e entre as linhas (intra e intersetoriais, se você preferir). Vejamos se isso se sucederá contra o Junior, na próxima quinta, para sabermos se pode ser um padrão ou se foi apenas circunstancial.

7. Não me estenderei sobre a arbitragem. Na minha opinião, os dois pênaltis e a expulsão foram corretos. Estranhei a demora para marcação da primeira penalidade. O Palmeiras teve problemas anteriores ao apito.

8. Como afirmamos no início, este é um jogo que ainda não terminou. Jaílson provavelmente será suspenso após dizer que o Palmeiras fora garfado. Um mau rendimento contra o Junior, em Barranquilla, pode ser razoavelmente deletério internamente. Aliás, não ficaria surpreso se houvesse mudanças na escalação titular já para quinta-feira.

9. Por outro lado, além de um bom desempenho, o Corinthians repousa em razoável segurança para a estreia na Libertadores. Além disso, repare quantas possibilidades a plataforma de hoje abre. Mateus Vital foi uma delas. Emerson Sheik pode ser outra. Alex Teixeira, caso se confirme a contratação, certamente o será.

10. Rodriguinho jogou demais. Foi, seguramente, o melhor jogador em campo.

@hudrmp

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