ANÁLISE TÁTICA, COMUNICAÇÃO E PAIXÃO PELO FUTEBOL

Por Carlos Guimarães

El tipo puede cambiar de todo: de cara, de casa, de familia, de novia, de religión, de dios… pero hay una cosa que no puede cambiar… no puede cambiar de pasión.” (El secreto de sus ojos, 2009).

O futebol é, para mim, o esporte mais encantador de todos. Exerce um fascínio junto ao público por não ser somente uma prática desportiva qualquer. É uma modalidade perfeitamente integrada à sociedade, servindo de elemento de identificação, reflexo ou, até mesmo, influência sobre os povos. O futebol caminha em conjunto com a sociedade, sendo um reflexo da mesma. Conforme Roberto Damatta explica, em seu livro “Universo do Futebol” (1982), é impossível retirar da bolha do futebol o amplo e forte componente de identificação social que se insere no esporte. Da mesma forma, as formas comunicacionais acompanham os desenvolvimentos sociais, políticos, econômicos e tecnológicos. Os processos de comunicação evoluíram ao longo dos períodos da humanidade, em diversos âmbitos, como os meios, o conteúdo e as demandas. Ou seja, o futebol e a comunicação, quando se encontram, precisam estar sintonizados com a sociedade de cada época.

Não se analisa mais um jogo em 2018 da mesma forma que se fazia em 1958, por exemplo. Novos modelos de comunicação são incorporados ao diagnóstico de uma partida. Com isso, há uma nova modalidade de análise, algo natural e presente na evolução da comunicação e do esporte em si.

O novo comentário esportivo é mais atento ao conteúdo do que à forma. No passado, havia uma dedicação especial ao estilo, à acessibilidade e aos recursos de linguagem. É normal que aconteça uma transformação no modo de comunicar e operar os costumes jornalísticos. A tecnologia e o acesso rápido à informação desafiam os analistas. De uns tempos para cá, ao invés de somente reproduzir formatos que eram consagrados numa época em que, por exemplo, não havia internet, passamos a agregar novos elementos para a análise. As análises tática, de desempenho e de aspectos relacionados ao jogo em si são elementos relativamente novos para os conteúdos propagados por comunicadores, aqueles que pretendem explicar o jogo sob diferentes âmbitos – da mesma forma que se fazem respeitáveis aqueles que se propõem a analisar aspectos psicológicos, sociológicos, educacionais e físicos do jogo, por exemplo.

O mundo da análise tática é fascinante. Quando, em 2015, fiz o curso da Universidade do Futebol e, através do contato com analistas táticos, aprendo cada vez mais. Compreender o jogo de futebol como um duelo de estratégias, de armações táticas, de possibilidades de ataque e contra-ataque e conceber a partida como um confronto de pensamentos são coisas que deslumbram. Acho que o futebol também é sobre isso. Não é algo estanque. É uma cadeia de aprendizado, acompanhando as próprias transformações do jogo. Não me considero, entretanto, um analista tático, um especialista ou um profissional voltado para este tipo de conteúdo, exclusivamente. Sou um jornalista, que adota este tipo de análise nos meus comentários, mas com interesse especial nos atributos comunicacionais que envolvem pareceres mais especializados e detalhados que os meus.

Embora seja um fã deste modelo, em agosto do ano passado, publiquei um texto na minha conta do Medium sobre os desafios dos analistas em repassar uma linguagem que fosse mais compreensível ao público. Minhas críticas eram pontuais: nada com relação a conteúdo, ressalvas com relação à forma. Claro que o texto gerou repercussões de diversas formas. Em certo ponto, houve uma reação radical (como acontece normalmente na era da pós-verdade): eu estava combatendo a análise tática e defendendo modelos antigos de análise, do qual, verdadeiramente, não me oponho. Esta dicotomia (e ninguém foge dela) é um tanto superficial. Não existe modelo certo ou errado de análise. Existem tendências que acompanham o tempo-espaço e que são influenciadas e influenciam pelos âmbitos contextualizados na abertura do texto. Talvez o mais claro seja o âmbito tecnológico. Se o jogo muda, algumas coisas sempre existiram. Mas, contribuindo para o debate e para a problematização, provoco: seria possível fazer uma análise tática minuciosa sem o auxílio de aplicativos, frames, softwares e imagens? Como seria possível uma análise deste patamar em um jogo da Copa de 1966, por exemplo? Sem a tecnologia atual, seria necessária uma parafernália monstruosa para que os comportamentos e dados específicos fossem colocados com clareza e com o mínimo de erros. Em suma, a análise “antiga” só existia por alguns motivos: porque não havia acesso, demanda, possibilidades, tecnologia e interesse. Não era por escolha ou por falta de conhecimento.

A análise tática é, portanto, um elemento culturalmente novo no universo que se relaciona com o futebol. É uma demanda nova, um interesse novo, com acessos novos, possibilidades novas, mediante novas tecnologias. O desafio é, portanto, decodificar sistemas complexos e voltados para uma área específica do futebol (entre tantas outras no contexto do esporte). É reforçar um aspecto, que gera um interesse ainda emergente, não hegemônico. Porque para o público, o pensamento ainda é de ter o futebol como um elemento de paixão, predominantemente. O torcedor tem no esporte um item considerável em seu conjunto de crenças e valores. É algo que ele leva para si, algo seu e que ninguém tem o direito de separar.

Então, onde entra a análise tática nisso tudo? Ora, o torcedor quer entender como funciona o jogo. Não acho que não seja motivo de interesse. Lúdico e técnico caminham lado a lado. Razão e paixão. Científico e intuitivo. Das tais faladas dicotomias, elas não faltam no esporte. Que a análise tática contribua para que a paixão seja explicada, entendida ou, ao menos, ilustrada. Que as informações sejam repassadas a estes apaixonados com respeito, para que eles entendam. É cruel reivindicar para si o monopólio do conhecimento. Ainda mais se for no futebol. Quanto mais gente souber, melhor. Quanto mais gente souber explicar, melhor ainda. Paixão é algo muito sério.

@csguimaraes

Comentarista e Coordenador de Esportes da Rádio Guaíba.

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