GUARDIOLA, MESSI E O FALSO 9

Por Ícaro Caldas

Pep Guardiola desenvolveu e transformou Messi no jogador mais letal do planeta. O espanhol não é o criador da função de falso nove, mas a resgatou com êxito nas cinco temporadas no comando do clube catalão. A função existe no futebol desde a década de 1930, onde o húngaro Nándor Hidegkuti, protagonista nos anos 1950 de grandes façanhas com sua seleção, a Hungria dos “Mágicos Magiares”, é considerado o primeiro grande atleta a executá-la com maestria.

Outros jogadores como o argentino Adolfo Pedernera, um dos líderes da máquina do River Plate (1936-45), Alfredo Di Stéfano, Michael Laudrup ou Francesco Totti foram grandes falsos nove. Essa figura estava afastada do cenário mundial até que, em 2 de maio de 2009, Guardiola consolidou a sua recuperação. Com o título da Liga em jogo, em pleno Santiago Bernabéu, contra o Real Madrid. Aos dez minutos, com o 0 a 0 no placar, deu a ordem para que Messi e Eto’o trocassem de posição. O camaronês foi para a ponta direita e o argentino ocupou a zona central do ataque, mas recuando como se fosse mais um meio-campista.

Os zagueiros do Real Madrid, Metzelder e Cannavaro, não souberam como reagir à mudança. “Acho que o primeiro jogo com o falso nove de Guardiola foi esse 6 a 2 do Barça sobre o Real. Ele colocou Eto’o na direita e Messi no meio. Fabio [Cannavaro] e eu nos entreolhamos: ‘O que fazemos? Vamos até o meio de campo com ele ou ficamos aqui atrás? ’. Não soubemos o que fazer e foi impossível pará-lo”, lembra Metzelder sobre aquela partida.

O Barça de Guardiola ganhou aquele jogo com um histórico 6 a 2 que, além de valer o título da Liga, deu início a um período excepcional para o clube, o qual acumulou títulos, glórias e um prestígio jamais visto. O falso nove ficou gravado na memória como uma das grandes contribuições de Guardiola. Não porque ele o inventou, mas porque o redefiniu através de um atleta brilhante como Messi.

Como Pep decidiu resgatar essa função? Aconteceu um dia antes da partida. Guardiola estava no centro de treinamento do Barcelona, estudando o adversário. Durante dois dias ele analisa a equipe que vai enfrentar, avaliando suas virtudes e fraquezas. Revê jogos inteiros e trechos em vídeo preparados por seus auxiliares.

pep e messi
Fonte: Instagram Esporte Interativo

Guardiola se fechou em sua sala e procurou a solução para o problema: como atacar o adversário? Onde criar superioridade? Revendo um jogo anterior entre as duas equipes, o treinador percebeu que a pressão dos meio-campistas madrilenhos Guti, Gago e Drenthe sobre Xavi e Touré era muito intensa, mas que os dois zagueiros, Cannavaro e Metzelder, permaneciam muito atrás, perto da área do goleiro Casillas, e deixavam uma zona aberta entre a zaga e os meias do Real. Um espaço gigantesco.

O técnico imaginou Messi se movimentando livremente por aquele enorme espaço vazio do gramado do Bernabéu, às costas dos meio-campistas do Real e encarando sozinho Metzelder e Cannavaro, petrificados sobre a linha da área, em dúvida sobre como investir contra o argentino. Guardiola repetiria a estratégia que adotou contra o Gijon, em setembro daquele ano.

Aquele confronto contra o Gijon foi em um momento de pressão para Pep, após a derrota para o Numancia e o empate com o Racing de Santander. Durante o jogo, Guardiola mandou Eto’o para a ponta direita e posicionou Messi como falso nove, função que o argentino exerceu muitas vezes nas categorias inferiores. O Barça goleou por 6 a 1.

Após sete meses, o treinador resgatou a mesma ideia e a explicava pessoalmente ao protagonista: “Leo, quando Xavi ou Andrés transpuser a linha adversária e lhe passar a bola, vá direto até o gol, até o Casillas”. O episódio ficou em segredo. Ninguém mais no Barça soube da conversa entre Guardiola e Messi naquela noite de 1º de Maio, exceto Tito Vilanova no dia seguinte, já no hotel da concentração. Minutos antes de começar o jogo de 2 de maio, Pep chamou Iniesta e Xavi e lhes disse: “Se vocês virem Leo entre as linhas do Real e pelo meio, não tenham dúvida: passem a bola para ele. Será como em Gijón”. Naquele 2 de maio de 2009, o Barça massacrou o Real Madrid por 6 a 2, Messi se transformou em falso nove e Pep sorriu feliz.

@caldas_icaro

@AFutebolisiticas

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